Da seleção, da Espanha e da raiva que esta merda me dá

Não há outra forma de o dizer: estou fodidíssimo! É mesmo com superlativo absoluto sintético porque o meu grau de “estar fodido” é, hoje, superlativo. Não sou indivíduo para usar e abusar destes pesos-pesados do calão (pelo menos no uso da palavra escrita), mas hoje abro uma exceção. Esta merda não se faz! Acho que a rotatividade é uma coisa importante, mesmo nesta coisa do futebol: será que é preciso serem sempre os mesmos na final? Os espanhóis já ganharam umas cenas porreiras, agora era a vez de outros.

Se há coisa que notei quando sai do tasco onde petisquei e mamei um bom número de imperiais, foi o silêncio. Não se ouviam buzinas, não se ouvia gente nas ruas a falar alto. Aquele silêncio foi horrível! Era o som de um país que já podia continuar a usar a seleção nacional como um escape para tanta merda que andamos a passar, como um pensamento positivo latente pelo menos até ao próximo domingo. Custava alguma coisa termos mais uns dias de ilusão e sonho? Seria tão saudável.

E agora, entram os teóricos todos nos fóruns, nas opiniões públicas, nas colunas dos jornais. Quase todos são unânimes ao dizer que Portugal fez um grande jogo, um grande europeu e saí pela porta grande ou de cabeça levantada e esses chavões todos pré-fabricados. Tenho orgulho no meu país, amo este Portugal. E não é o Portugal do futebol. Amo o meu país ponto. Mas queria mais, queria continuar a sonhar pelo menos até domingo. Queria retirar o prazer ao senhor Platini de ter a Espanha na final. Puta que o pariu. Logo à noite, sou italiano desde pequenino, porque dos alemães, desses não gosto mesmo.

Foda-se, pá! Fiquei e permaneço ainda fodidíssimo!

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Querido verão:

Já há alguns anos que noto que andas trapalhão e desorganizado, enfim, de mal com a vida. Eu sei que não achaste muita graça quando esses arautos de sapiência te transformaram num nome comum e te retiraram o privilégio de seres escrito com letra maiúscula (junta-te com os meses do ano e os pontos cardeais e lancem-se as rua em protesto). Deves sentir-te incompreendido, deprimido talvez. Tens estes ataques de pânico em que, de um dia para o outro, resolves descarregar em cima das pessoas e mostrar que estás vivo e bem vivo. Sabes bem que todos nós andamos confundidos com as estações do ano, já ninguém entende onde acaba uma e começa outra. Aos gaiatos quase chega a ser ridículo colocar em evidência as caraterísticas de cada estação do ano. É preciso ter uma pontaria danada para escolher o dia em que escolhemos falar do inverno porque, muitas vezes, lá fora faz sol, os casacos fazem companhia aos cabides e o guarda-chuva parece ser um objeto cada vez mais condenado às lojas de antiguidades.

Eu confesso: eu tenho um problema com estes teus ataques de fúria. Não gosto quando tens uma ereção que resulta nestes números loucos de 40 graus de um dia para o outro. Não gosto de calor a mais e, fosse eu a mandar no mundo, criava um imposto bem elevado apenas para ti, de cada vez que subisses acima dos 30 graus. Talvez assim pensasses duas vezes.

Vê se tens calma, que a malta ainda nutre um carinho muito profundo por ti. Vá, vai lá para o teu alçapão e reflete bem sobre o que te disse.

Sobre as dores

As dores são sensações altamente desagradáveis que basicamente a única função que cumprem é doer. As dores doem e, se tivessem um pingo de decência, não o fariam. Mas as dores não se interessam. São más para as pessoas e têm prazer nisso. Sobre as pessoas que dependem das dores (médicos, enfermeiros, farmacêuticos, endireitas, curandeiros e Professores Bambos), tenho a certeza que poderiam encontrar outras profissões de respeito caso as dores não existissem. Não tenho qualquer respeito pelas dores. Elas também não me respeitam.

Os automóveis e as onomatopéias (seres não-vivos narcisistas)

É sabido: os automóveis não falam. São apenas utensílios (nem de seres vivos se tratam) embutidos de metal, plástico, vidro, borracha e outras cenas. São coisas feitas de peças ligadas a outras peças, fios ligados a outros fios, montões de interruptores para coisas que se ligam e desligam, para que as coisas funcionem ou não. Mas, devido a tantos materiais, tanta coisa ligada entre si,  há os barulhos. É nessa altura que os carros parecem ganhar vida e a capacidade exclusiva dos humanos, a de falar. Bem, eles não falam…mas sabem bem como chamar a nossa atenção sobretudo através de golpes baixíssimos e geralmente dispendiosos: “Troca-me esta peça!”, “Eu já não funciono!”, “Estou gasto!”, “O meu uso contínuo pode ser perigoso!” e outras variáveis.

As onomatopéias são classes de palavras ou fonemas que representam sons ou pretendem representar. Periodicamente, o meu carro adora preocupar-me com as suas onomatopéias. Primeiro começa por ser um barulho ligeiro que levanta suspeitas. Depois passa a ser repetitivo o que levanta preocupações. Depois entre na categoria do intolerável/ irritante/ inaceitável o que levanta uma onda de ódio para com uma máquina cujo o propósito é servir o seu dono.

Treque, Treque! Pum, pum! Pf! Pf! Tche! Tche! O meu carro, periodicamente, adora humilhar-me com a sua facilidade em inventar onomatopéias, sabendo que eu sofro de uma condição já diagnosticada: uma enorme dificuldade em representar com letras sons feitos por máquinas. Os mecânicos já me intimidam o suficiente porque eu nada percebo de carros. Sinto-me verdadeiramente humilhado quando faço a ridícula figura de descrever um ruído cuja origem nem sequer consigo localizar com exatidão.

Os carros sãos seres não-vivos horríveis! Parecem bebés sempre a servirem-se de onomatopéias para verem as suas necessidades satisfeitas. De qualquer forma, mesmo que falassem, nunca haveria espaço para o diálogo. A única palavra que conheceriam seria “me! me! me!” (porque na minha cabeça os carros falam em inglês). E eu respondo “what about my needs?” para que ele não possa usar como desculpa a barreira da língua como ausência de comunicação. Mas nada. Ele há seres não-vivos muito narcisistas, chiça penico!

Sobre o tipo que anda a convidar toda a gente para ir ver os aviões

Não foi de repente, foi uma coisa que foi crescendo em mim sem eu dar conta. Foi o Piazzolla, foi o Morricone, foi o Rodrigo Leão. Antes disso já tinha sido o António Pinho Vargas, o Pat Metheny e meia dúzia de coisas bonitas dos grandes compositores clássicos. Depois de ter dobrado o cabo da descoberta dos grandes guitarristas, depois de ter dobrado a esquina onde param os bons escritores de canções e poemas, brotou o vício e a urgência da música sem letra. Não foi de repente, foi crescendo dentro de mim: uma elevadíssima percentagem da música que consumia de forma compulsiva não tinha letra. E como odeio o termo “música instrumental” (como se a outra, a que tem letra, não o fosse!), chamo-lhe só “música sem letra”.

E com isto, com a dependência da música sem letra, começou a passar-me muita coisa ao lado. Da maior parte, não tenho pena, não me arrependo, não sofro. Mas há por aí uns tipos que eu tenho pena de não conseguir deixar entrar, ou pelo, que tem de comer a relva para que os consuma. Entenda-se: consumir não é ouvir na rádio e cantarolar a letra do refrão. É ter o disco, é conhecer a obra, é saber de onde vêm, para onde vão, quem compõe, quem escreve. Consumir música, para mim é conhecê-la, deixar (ou não ter opção mesmo) que ela me incomode.

Sobre o Miguel Araújo, chego a ter pena de o dizer porque acho que o moço tem um talento danado, mas muito provavelmente, lá vai ser mais um que me vai passar ao lado. Não irei ao médico por causa disso, não irei afogar-me em barbitúricos, mas tenho quase a certeza que virei a ter pena de algumas das canções do Miguel Araújo e dos Azeitonas (que são entidades diferentes, ambas em atividade) me passarem ao lado. É que há ali talento. Haverá até um lufada de ar fresco. E tem uma coisa que aprecio imenso: é multi-instrumentista.

Fica aqui uma coisa bem bonita, uma versão de uma música do António Zambujo, interpretada com enorme mestria no ukelele, instrumento ao qual, mais cedo ou mais tarde, terei de ir parar.

Do fim das aulas

É um dos dias mais felizes na vida de qualquer criança: o último dia de aulas, que é como quem diz, o primeiro dia das férias “grandes”. Entre os mais velhos, contam-se aqueles que por excesso de anseio têm o relógio sincronizado com a toque de saída. Desses foi audível a contagem decrescente como se uma passagem de ano se tratasse. As passas, as taças de champanhe e os votos de um bom ano, foram substituídos por emoção genuína igualmente ruidosa: urros e interjeições várias.

Para os mais novos, a quem dois meses e meio de férias corresponde a 2 anos adultos, é tempo de fechar os cadernos, colocar livros numa estante refundida do alçapão lá de casa, para daqui a uns anos se juntar tudo numa caixa de cartão, para passados outros tantos se recordar as primeiras frases e as primeiras contas.

Agora, é o silêncio das campaínhas, os lápis que ficam por afiar, as mochilas escondidas atrás dos móveis que é nelas que coloca todo o simbolismo dessa entidade sagrada chamada “escola”. É a alegria, a temperança ou as lágrimas ao ver o nome na pauta seguido de uma série de números que nos indicam não só a qualidade do que ficou para trás, mas antes que avaliam a qualidade das férias. Podem muito bem ser diretamente proporcionais ao número de vezes que se irá à praia, à quantidade de gelados que serão comidos e as horas agarrados às consolas de entretenimento.

A importância de uma banda sonora para um filme

…ou “Como ter a certeza de que as pessoas vão levar a sério um filme que pode correr o risco de não ser levado a sério por ser sobre uma rede social

Toda a gente sabe da importância da banda sonora num filme. Há por aí umas que depois até dispensam o próprio filme e sobrevivem como organismos independentes da película e subsistem apenas pelo seu valor. Podíamos falar nas bandas sonoras de filmes feitas pelos generais Ennio Morricone, John Williams, Hans Zimmer, Danny Elfman, Howard Shore e por aí fora. Mas não vou entrar por aí e deixarei para mais tarde o meu tributo a estes gigantes sagrados diante dos quais perpetuamente faço a minha genunflexão.Trata-se do impacto criado pela banda sonora do “The Social Network”. A banda sonora ficou a cargo do Trent Reznor (estreante nestas andanças) e do Atticus Ross. Acho que o senhor David Fincher queria ter a certeza de que as pessoas levariam este filme a sério desde o primeiro minuto. Se para muitos bastaria saber que ele era o realizador do filme (que já tinha feito coisas raios-parta-de-boas como “Seven” e “Fight Club”) para saber que, apesar de ser sobre o Facebook, isto não iria ser um filme “giro” (até porque giros são os peluches), acho que o homem não quis correr riscos. Ele deve ser daqueles tipos que gostam de fazer bem as coisas. Cheira-me…

Lembro-me de ver o filme pela primeira vez e de ficar de imediato esmagado com aquele diálogo surreal logo no início (ao som do “Ball and Biscuit” dos White Stripes) e depois entra isto…

E é com isto que o espetador, consciente ou inconscientemente, percebe “ok, isto é um filme para levar a sério”. Minimalista e perturbador são as primeiras palavras que me aparecem na mente. E à primeira tentativa, os criadores da banda sonora levaram para casa um Globo de Ouro e um Óscar. É mesmo para levar a sério!

Exit Music (For a Film) – Ca ganda break de bateria!

Há músicas que têm em si a capacidade de nos fazer esperar por aquele momento, aquela nota, que às vezes é uma coisinha de nada. Mesmo a música sendo boa, ficamos à espera daquele momento. Para mim, nesta música, é aquele break maravilhoso de bateria (aquele que transpira a Nick Mason por todo o lado).

A extinção do acento grave

“Aberto das 9 ás 17”

“Á pipis e moelas”

(calafrios)

Sou pela Língua Portugesa, de preferência bem tratada que é o mesmo que dizer bem escrita e bem falada. Não sou nenhum paladino que anda por aí com cartazes na rua a defender o “bem-escrever” e também não tenho nenhum antídoto dentro de mim que me livre de, de quando em vez, estampar um agrafo no escroto da gramática. Não tenho nenhum poster no meu quarto da Edite Estrela. Isto que fique desde já bem claro!

Às crianças, sobretudo aquelas que estão numa fase embrionária no que diz respeito à aprendizagem da ortografia, (quase) tudo se desculpa. É dos erros dos adultos que me queixo. Incomoda-me francamente a displicência com que algumas pessoas escrevem! Há pessoas que simplesmente não se esforçam por respeitar a língua. Mas, de todos os erros que por aí vejo, há um que me causa urticária e suores frios: o “á”! E porque me custa especialmente? Porque quase podemos dizer que o acento grave só existe numa palavra: “à”. Naturalmente não podemos esquecer que também ele está presente no “às” e na contração de “à” com alguns demonstrativos (àquilo, àquele, àquela). Mais recentemente, e devido à forma com que salivamos e mastigamos as sílabas ao falar, é frequente vê-lo igualmente em palavras como “prà” ou “prò”, isto porque o acento grave resulta da contração de uma preposição com um artigo (para+a ou para+o).

O que me incomoda é que o acento grave é uma raridade! Na verdade, há muito que o considero uma espécie em vias de extinção. De fato, creio que ainda serei vivo (e acho que não precisarei de ter uma vida por aí além de longa) para ver surgir um acordo ortográfico que, de uma vez por todas, queima na fogueira este acento-bruxa que vai fazendo das tripas coração para se manter vivo. Até porque ainda temos a eterna confusão entre o “há” e o “à”, mas nem quero entrar por aí…

Bom, se pensarmos bem, não há qualquer razão fonética para o acento grave existir. O som “forte” da letra “a” é lido da mesma forma com acento grave ou agudo. Mas já que ele existe e, ainda por cima, em tão poucas palavras, será que poderemos fazer um esforço para o manter vivo, porra??

Prometheus…não cumpriu.

Eu sei, eu sei, o trocadilho do título é óbvio demais e parece um daqueles chavões que aparece em caixa alta na capa de A Bola. Mas sinceramente…não resisti. Eu gosto do Ridley Scott, tenho cá para mim que podíamos até ser bff’s. E acho que o senhor tem até uma maldição: o homem não consegue fazer um filme mau. Caramba, o homem ofereceu-nos um bicho-papão-bad-ass-major-mother-fucker no seu Alien que ainda hoje nos atormenta. Deu-nos uma reflexão sobre o valor da vida artificial e uma atmosfera futurista poética no seu Blade Runner. Deu-nos um Gladiador que nos fez ter vontade de ver homens com pelo na venta a esvair-se em sangue sem nos sentirmos sádicos. E agora, deu-nos um Phrometeus que se esperava ser uma bomba por vários motivos, nomeadamente alguns. Andava meio mundo curioso que raio iria ele inventar como prequela para o Alien. A outra metade do mundo só queria saber se realmente viria aí um filme que explicaria a origem do Homem na Terra. Well, buh, fucking, uh! As duas metades do mundo ficarão provavelmente insatisfeitas, o que pelas minhas contas perfaz…o mundo inteiro (tive de fazer a prova dos nove para ter a certeza). Mas há coisas boas no filme? Pois que as há. Há uma preocupação com a estética, um deslumbre visual em certos momentos muito bem conseguido e, uma vez mais, provas de que o Sr. Ridley é um genial visionário no que toca a criar quinquilharias (leia-se gadgets, brinquedos, veículos) que podem vir a dar muito jeito no futuro. Há um Michael Fassbender que está muito bem (o rapaz agora também resolveu aparecer em tudo o que é filme). Para além disso, coisas boas…deixa cá ver…não me lembro de mais nada. Uma banda sonora que parecia destinada para outro filme qualquer, uma história toda colada com cuspo, um casting francamente mau (uma Ripley wanna be desastrosa, uma Charlize Theron que só está lá porque fazia falta uma gaja boa num fatinho espacial justo e meia dúzia de bacanos apanhados num casting de vão-de-escada) e um argumento escrito por gente que podia muito bem ter escrito o último episódio do Lost (a pergunta “para que andei eu a ver aquilo durante seis anos?” ainda ecoa em mim).

Parece-me evidente que desta vez…custa-me até dizer isto, mas o Ridley Scott, Ridi pròs amigos, falhou. Mas ainda assim, acho que é bom moço e as suas intenções continuam a ser as melhores.