Os automóveis e as onomatopéias (seres não-vivos narcisistas)

É sabido: os automóveis não falam. São apenas utensílios (nem de seres vivos se tratam) embutidos de metal, plástico, vidro, borracha e outras cenas. São coisas feitas de peças ligadas a outras peças, fios ligados a outros fios, montões de interruptores para coisas que se ligam e desligam, para que as coisas funcionem ou não. Mas, devido a tantos materiais, tanta coisa ligada entre si,  há os barulhos. É nessa altura que os carros parecem ganhar vida e a capacidade exclusiva dos humanos, a de falar. Bem, eles não falam…mas sabem bem como chamar a nossa atenção sobretudo através de golpes baixíssimos e geralmente dispendiosos: “Troca-me esta peça!”, “Eu já não funciono!”, “Estou gasto!”, “O meu uso contínuo pode ser perigoso!” e outras variáveis.

As onomatopéias são classes de palavras ou fonemas que representam sons ou pretendem representar. Periodicamente, o meu carro adora preocupar-me com as suas onomatopéias. Primeiro começa por ser um barulho ligeiro que levanta suspeitas. Depois passa a ser repetitivo o que levanta preocupações. Depois entre na categoria do intolerável/ irritante/ inaceitável o que levanta uma onda de ódio para com uma máquina cujo o propósito é servir o seu dono.

Treque, Treque! Pum, pum! Pf! Pf! Tche! Tche! O meu carro, periodicamente, adora humilhar-me com a sua facilidade em inventar onomatopéias, sabendo que eu sofro de uma condição já diagnosticada: uma enorme dificuldade em representar com letras sons feitos por máquinas. Os mecânicos já me intimidam o suficiente porque eu nada percebo de carros. Sinto-me verdadeiramente humilhado quando faço a ridícula figura de descrever um ruído cuja origem nem sequer consigo localizar com exatidão.

Os carros sãos seres não-vivos horríveis! Parecem bebés sempre a servirem-se de onomatopéias para verem as suas necessidades satisfeitas. De qualquer forma, mesmo que falassem, nunca haveria espaço para o diálogo. A única palavra que conheceriam seria “me! me! me!” (porque na minha cabeça os carros falam em inglês). E eu respondo “what about my needs?” para que ele não possa usar como desculpa a barreira da língua como ausência de comunicação. Mas nada. Ele há seres não-vivos muito narcisistas, chiça penico!

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