The Sopranos – um conjunto de sons e de silêncios

Nos últimos meses dediquei muitas horas a seguir de enfiada todas as temporadas dos Sopranos. Ontem cheguei ao fim desta epopeia, sem levar nenhum tiro, sem ser extorquido em qualquer centavo, sem ser intimidado por qualquer um dos capitães para entregar o meu dízimo num envelope. Mas nem sempre me senti seguro, confesso que houve alturas em que temi pela minha integridade física. O casting é de tal forma perfeito que eu estou disposto a admitir: estas pessoas existem mesmo! A violência, quando existe, é feita de instantes decisivos. No fundo, tudo se resolve a bem, que é como quem diz, com um balázio nos cornos de alguém que aparece do nada.

Mas os Sopranos não é só sobre os negócios obscuros da Cosa Nostra. Há ali valores, há família, há cuidar dos nossos e dos que já não podem, há sensibilidades feridas aqui, mesmo até os homens, que são bad-ass-motherfuckers do pior, também choram. Depois há ataques de pânico e relações complicadas com mães, assuntos de gente crescida discutidos sempre em frente a uma terapeuta de perna traçada. E nós sempre a pensar “afinal quando é que ele lhe salta para a espinha?”.

Tony Soprano é uma bomba-relógio ambulante, um incompreensível sedutor peludo e gordo que acaba sempre com as gajas boas todas, um manequim para camisolas interiores de mau gosto, um putanheiro que se safa sempre, um ser em conflito. James Gandolfini e Tony Soprano são apenas uma pessoa, porque se o homem não manda mesmo na corja toda de New Jersey é porque não quer. Não é respeito, é medo mesmo de quem se pela todo!

Depois há as alusões constantes ao Padrinho, ao Goodfellas, ao Scarface. E não há receio nenhum de as fazer, porque não pode haver. Se nós as fazemos, porque não hão de eles fazê-lo?

Os Sopranos são um enorme conjunto de sons e de silêncios. A banda sonora é mínima, os diálogos são intensos e muitas vezes incendiários, à bruta mesmo, mas raramente acompanhado de “banda sonora”. Mesmo as cenas de tensão, de punhada, de tiros, bombas e socos nas trombas, que geralmente não dispensam um conjunto de instrumentos para lhes fazer a cama, aqui estão entregues a si mesmos. Os diálogos, a realização, a linguagem corporal, a ausência de censura na linguagem, tudo isso que se desenrasque sozinho, porque não há lá temas-tipo-suspense para os ajudar.

Silvio, vou ter saudades da tua expressão facial de desenho animado e de te ouvir a imitar o Al Pacino “just when i thought i was out they pull me back in” ou “our true enemy has yet to reveal himself”.

Christopher, vai fazer-me falta a tua atitude de “rebento-te os queixos já aqui nem que tenhas o triplo do meu tamanho”.

Paulie, vou ter saudades das tuas madeixas laterais e do teu risinho irritante.

Porque é que os Sopranos é uma das melhoras séries de sempre? Porque é real, é sobre a vida, como ela é. Os adornos são mínimos. A série é enfeitada apenas por atores fantásticos, uma história bem contada e silêncios, muitos silêncios. E basta!

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4 thoughts on “The Sopranos – um conjunto de sons e de silêncios

  1. Espero que estejas bem ciente dos riscos, porque esta coisa da Máfia não é só gargalhadas e citações do Padrinho. É coisa séria e cheia de gente que aleija.

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  2. Mt interessante ler este post. eu estou a ver a série, estou quase a terminar a segunda temporada, e é um assombro.
    Eu própria já faço parte della famiglia.

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  3. Obrigado pelo apreço e pelo comentário. De facto, os Sopranos não é uma daquelas séries que vai crescendo até atingir um climax no último episódio: é uma série que vai crescendo dentro de nós. É impossível a certa não nos sentirmos como parte da família e o desejo secreto de participar nos negócios obscuros.

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