Ornatos Violeta ao vivo – os monstros têm tantos amigos…

Fui daqueles que teve a sorte de testemunhar este reencontro logo na primeira noite de Coliseu. Com o aproximar da hora o público mais parecia uma bomba-relógio pronta para explodir assim que as luzes começassem a dar sinal de fraqueza. A banda entrou e deu-se início às celebrações, no palco e na plateia. O público festejava com ruidosa alegria (não confundir com histeria porque isso é próprio de outra geração). A banda, desde cedo se percebeu que estes monstros estavam tão alegres por ver tantos amigos… Foram muitas as vezes, ao longo das quase três horas, que os fab-five contemplavam maravilhados a paisagem que o Coliseu lhes proporcionava. Manuel Cruz punha as mãos na cabeça assistia imóvel ao espetáculo que se passava do outro lado do palco, como quem diz com o olhar “Tive saudades disto! Vou ter saudades disto!”.

O concerto foi uma barrigada de hinos, entoados em tronco nú. Numa altura em que a austeridade marca os tempos, os Ornatos não fizeram cortes no seu orçamento, deixando pouco ou nada de fora. Não acredito que tenha havido alguém a sair insatisfeito. Houve até tempo para um João-qualquer-coisa subir ao palco para acompanhar a banda à guitarra, mantendo assim vivas as fantasias de todos aqueles que sonham um dia partilhar o palco com a sua banda preferida, porque afinal, estas coisas acontecem mesmo…

Das canções, já se sabe, estão cheias de verdades convenientes e de espelhos bem polidos. Houve temas do passado jurássico, de quando iam “para a Nazaré apenas com um par de meias”, mas também de um passado mais recente. No final, essa ideia não deixava de ser incómoda: as únicas canções dos Ornatos que terão futuro são aquelas que formos buscar ao passado porque, como alguém ao meu lado dizia “não acredito que nunca mais vou ver estes gajos ao vivo”.

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O casamento do meu melhor amigo (ou a receita infalível para um casamento de sucesso)

Eu nem sou de casamentos, tenho até medo deles. Eu nem sequer fui ao meu casamento! Por norma vejo-os como dias demasiados grandes, demasiado cheios de gente, demasiado previsíveis. Chateiam-me as imensas horas sentado à mesa, bastas vezes com pratos servidos junto a pessoas que mal conheço. Causam-me náuseas e urticária aqueles ridículos leilões da liga da noiva e dos fanecos de gravata do noivo. A partir de certa idade os casamentos são como os funerais: tornam-se num ponto de encontro para as pessoas que deixamos de ver com frequência. Toda a gente traz um saco cheio com as perguntas mais chatas do mundo: “Então, como estás?”, “O que é que tens feito?” ou “Como anda a tua vida?”. As respostas são por norma igualmente desinteressantes e enfadonhas. Ou talvez seja eu que tenha mau feitio…

O casamento do meu melhor amigo mostrou-me que, com os ingredientes certos, é possível cozinhar uma festa de arromba e dar-lhe o rótulo de “casamento”.

Convidem-se apenas os amigos e familiares mais próximos. Em caso de dúvida em convidar ou não determinada pessoa, a resposta certa é não convidar.

Obrigar todos os convidados a repensar o seu dresscode: gravatas, sapatos desconfortáveis, calças vincadas e vestidos demasiado formais, é deixá-los ao abandono em casa, à espera do próximo casamento chato. Colarinhos ao léu, ténis e Doc Martin’s, gangas (um casamento a roçar o casual e o pseudo-hipster).

A comida não precisa de ser em excesso para impressionar os convidados. Precisa sim de ser a suficiente e de ser boa.

A festa nunca deverá começar antes das quatro da tarde. As senhoras escusam de marcar o cabeleireiro e as unhas às 6 da manhã, os homens podem dormir até tarde para recuperar da celebração de mais uma vitória do Benfica na noite anterior. Com a noite bem dormida, toda a gente terá energia para bailar até o álcool não deixar mais ou até a quinta querer fechar as portas.

Os animais de estimação? Desde que não sejam daqueles que comem pessoas ou que não saibam estar calados, é trazê-los também com laço atadinho ao pescoço e banhinho tomado.

Esqueçam o tormento da fila com senhas para tirar fotografias. A opção é um fotógrafo inteligente e com bom olho. As boas fotos são feitas de momentos que acontecem porque sim. Tragam-se acessórios para explorar o lado ridículo e estouvado que mora em cada um de nós.

Em querendo organizar uma surpresa para os noivos, faça-se de vez o funeral à projeção de fotografias em powerpoint, aos teatrinhos tolos com piadas que só meia dúzia percebe, às versões fofinhas e apimentadas das musiquetas habituais. Em vez disso opte-se por um flashmob com o maior número de gente possível. Mesmo com passos falhados e gente que quer acompanhar à força sem ter ensaiado, o efeito visual será inolvidável para os recém-casados.

As crianças são fofinhas mas inspiram cuidados trabalho e cansam. Há quem diga até que os bebés são pessoas horríveis porque só sabem pedir. O melhor é deixá-los com os sogros para que a única preocupação seja mesmo encher a cara e dançar in the evening to the sun.

Cabe ao noivo desenvolver um par de túbaros e cantar uma música a solo e sem rede, com um refrão daqueles bem bonitos em que até os convidados possam participar sem roubar protagonismo. A considerar, a colaboração das madrinhas com bailarinas de cabaret, sobretudo se tiverem saias curtas e amor para dar.