Da entrevista da Judite (e porque estou do lado dela)

Ao fim de tanto tempo a ouvir falar da tão afamada entrevista da Judite de Sousa ao hexabilionário  Lorenzo Carvalho, decidi finalmente ver pelos próprios olhos . Fui adiando enquanto pude porque às vezes prefiro manter-me na ignorância das coisas mundanas da vida. Convém adiantar que, ao longo destas semanas, os comentários que me foram chegando eram pautados por repúdio e asco  para com a Judite. Os muitos leitores do meu blogue (salvo o erro são três nesta altura porque a minha mãe não conta) deverão estar em pulgas para saber o que achei. Ora achei várias coisas, nomeadamente algumas. A saber:

  1. Vê-se mesmo que o agosto jornalístico é uma pobreza. 14 minutos dedicados numa entrevista a uma pessoa que não é político é obra! Foi uma não notícia, que virou notícia e que virou entretenimento.
  2. Para 22 anos, o rapazinho até se defendeu bem. Com um português bastante questionável, lá foi aguentando as chibatadas vindas do outro lado da secretária (que por acaso ficava muito melhor com um naperom daqueles que a minha avó fazia).
  3. Parece-me evidente que a Judite está carente. A mulher precisa de um aconhego na patareca. O Seara foi entregar afetos para outros lados e cagou para ela e isso nota-se.
  4. Quanto à Judite…ela, de facto, não esteve bem…PORQUE O GAJO NÃO ERA UM POLÍTICO E PORQUE É UM PUTO!!!!!!! Porque se fosse as balas fossem disparadas contra um dos nossos governantes…aí sim, ela tinha sido fantástica! ELA DISSE O QUE TODA A GENTE PENSOU!!!!!! “Ai, mas ela não pode, porque ela é jornalista, porque tem de ser isenta, porque parece mal, bla, bla, bla”. Eu gostava de saber quantas pessoas acharam maravilhoso que ele tenha gasto 300.000 euros (quase que me enganava na quantidade de zeros) na sua festa de aniversário. “Fez muito bem!” pensou de certo a dona Virgínia, a minha vizinha de cima que vive com uma pensão que dá para alimentar dois gatos e mal. O gajo pagou largas centenas de milhares de euros para ter os convidados por perto!!! PAGOU???? Mas claro que toda a gente acha isto normalíssimo!!! Eu, que faço anos daqui a 15 dias, tenho ali um porquinho-mealheiro prontinho a escaqueirar para poder contratar as mamas da Monica Bellucci. E a Monica Bellucci, ao contrário da Pamela, nem precisa do meu dinheiro porque preferiu não fazer a sua vida à conta de silicone e de um fato de banho vermelho.

Eu não odeio o garoto por gastar quantias pornográficas sempre que quer. Ele nem tem culpa de ter tanto dinheiro. Mas também não odeio a Judite porque uma vez na vida julgou, na praça pública, um pirralho que caga diamantes e peida euros. Toda a gente é livre de gastar o dinheiro que tem como bem entende. Ao contrário, em boa verdade, a Judite não é livre para poder “humilhar” um convidado assim. Não foi bonito. Mas continuo a achar que ela não disse nenhuma mentira e que representou uma boa parte dos pensamentos de quem viu a reportagem. E, contextualizando isto no universo TVI, é só mais um momento dourado.

A culpa do estado do país é deste pivete? Não, com certeza. Ele tem alguma obrigação moral de fazer de se montar num cavalo e qual D. Sebastião levar-nos para a terra prometida com a sua fortuna incalculável? Também não. Mas eu faço só ideia quantas pessoas terão dito, antes da entrevista “se tu agarrasses nesse dinheiro todo e ajudasses masé os pobrezinhos”. E a burra é a Judite?

Agora vou ali ver o Star Trek que saquei há pouco nos torrents porque não tive dinheiro para ir vê-lo no cinema e cagar para esta merda toda.

Todas as coisas boas do mundo

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A minha sobrinha resolveu tirar uns minutos de férias daquilo que faz melhor: existir no sono. Eu arregalei os olhos e a minha cunhada sabia bem ao que eu ia. Com um aceno de cabeça assentiu e eu julguei-me gladiador que acabava de ver o polegar virado para cima. Sem especial talento, e com uma boa dose de receio e respeito, senti-lhe o peso e aconcheguei-a contra mim. Certeiro que nem terminação de lotaria escolhi uma daquelas posições que a minha sobrinha-coisa-mai-linda-do-seu-tio não aprecia particularmente. Os bebés não são gente paciente e este tesouro não é exceção – rapidamente explodiu num pranto cheio de agudos. Mas eu queria lá saber: oficialmente, era tio. Ao senti-la no meu colo foi como se finalmente me tivessem passado a caneta para a mão e me dissessem “assina aqui onde diz tio”. Não durou muito, mas, por breves instantes, todas as coisas boas deste mundo estavam ali. Nunca tinha sentido tanta força vinda de uma coisa tão frágil. O mundo ainda não teve tempo para lhe pôr as patas e começar a estragá-la mas a sobrinha-coisa-mai-linda-do-seu-tio já exige respeito. E de forma ruidosa. Depois foi-se…e depois ficou. Foi-se para a mãe, para mais um chuto da sua droga preferida, mas ficou aqui dentro, naquele alçapão onde coloco as minhas pessoas preferidas, coisa restrita onde só entra quem tem crachá ultra-mega-vip.

 

Amália, a gente ainda não se conhece bem, mas a coisa vai. Conheces aquela frase feita que se vende nos quiosques e tabacarias “ninguém ama aquilo que não conhece”? Esquece. Eu ainda não conheço as tuas manhas e já estou “apanhadinho” por ti.

 

Minha querida sobrinha,

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vais já com dois dias e umas horas de vida e é caso para dizer “The Force is strong with this one”.  Não deste conta (porque estavas mais entretida a ser fofinha e bonitaça) mas houve um montão de gente que te foi ver logo no dia em que nasceste. Este teu tio, por exemplo, queimou um montão de cigarros enquanto esperava a altura de te conhecer. O teu avô já não estava a achar graça nenhuma e a tua mãe queixou-se logo do cheiro e que eu já estava a ser uma má influência para ti. Quando chegou a minha vez percorri os corredores da maternidade com o coração do tamanho de um comprimido. Disse-te logo ao ouvido “olá, eu sou o tio fixe” e tu sorriste para mim. Eu sei que sorriste e tu também sabes…

Agora é ver-te a existir. O tio vai cá estar para te ajudar nos trabalhos de casa. O tio vai ser um fixe e quando tiveres…seis meses vai-te pôr a aprender piano (essa coisa dos instrumentos de percussão fica para os outros bebés). O tio vai mostrar-te a salvação e não permitirá que o avô, a mãe ou o outro tio te transformem numa pessoa cabisbaixa, que é como diz “adepta do Sporting” (blac!). Vais com o tio à Catedral, vais gritar golo do Benfica como se não houvesse amanhã e vais tirar fotografias com a águia Vitória como fazem as gentes rudes da província quando vem à capital. Claro que vais com o tio sempre ao cinema sempre que sair um novo James Bond. Também vais ter de ver todos os filmes do Batman, mas isso é para o teu bem, mesmo que não percebas logo. O tio vai-te gravar umas mixe tapes de música da boa para tu esconderes debaixo da cama para não estares sempre a ouvir aquelas merdas que os teus pais ouvem e que ninguém conhece de lado nenhum. O tio é pobre e não vai conseguir dar-te prendas muito caras, mas de vez em quando compra-te um Calipo ou uma carteirinha de cromos (mas não podes dizer nada à mãe).

Querida sobrinha, na verdade o tio ainda não sabe sê-lo. Só sabe aquilo que se lê nos livros e se vê nos filmes. Mas prometo amar-te e respeitar-te, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da nossa vida. Não te vou meter dentro de uma redoma porque quero que erres de vez em quando. Ocasionalmente, vais ter de saber cair para perceber que a melhor parte é o saber levantar.

Ah! E se queres saber, acho que os teus pais são uns fixes e vocês vão ser todos incríveis…mas não lhes digas que eu disse isto.