Sobre o Instagram (ou A felicidade é quadrada e tem filtros)

Recentemente troquei de telemóvel. É, fiz-me um homem. Passei de um Samsung barrasco para um iPhone. Durante uns meses, eu e o meu Samsung fomos muitos felizes…até eu ser encornado à força toda porque ele já só fazia amor comigo quando lhe apetecia. Quando ele já não me desejava, eu tirava-lhe a bateria e começava tudo outra vez até ele amarrar o chibo novamente. Mas foi nesse tempo que descobri o Instagram. Depois de finalmente aprender a dizer a palavra (a interferência da palavra Tangram foi uma puta dor de cabeça), estava pronto para ser feliz. Eu só podia ser feliz porque no Instagram toda a gente é feliz! Tudo é interessante, o planeta é fértil em cores bonitas, toda a gente tem almoços e jantares étnicos e afrodisíacos. O Instagram até faz com que as pessoas se alimentem melhor!

Não há uma única pessoa que tenha Instagram e que tenha uma vida enfadonha. Os Instagramos estão sempre a fazer coisas incríveis! Os bebés são todos fofinhos, não há nem um que tenha cara de joelho! Já não há cães daqueles que comem pessoas, só há bichos fofinhos com ar de Scottex. Até um umbigo carregado de cotão traz alegria o nosso mundo com toda a sua riqueza estética.

Depois há as selfies… Olha, estou aqui! Vou pôr na rede! Olha, cortei o cabelo! Pumba, rede! Olha, dei um pum! Rede com ele!

Já não há pessoas feias. Ninguém acorda despenteado, ninguém tem os pelos do nariz por aparar, ninguém pisca os olhos e toda a gente tem um sorriso pepsodent (nem que seja à décima tentativa).

Não há volta a dar: o caminho da salvação é quadrado e usa filtros. E é vendido sem receita médica. Ainda estou com dor de corno à conta do meu Samsung, mas foi com ele que comecei a ser feliz. Mudei de telefone, mas continuo a usar o Instagram porque tenho medo de voltar a ser uma pessoa triste e cinzenta.

PS: se houver alguém que me diga que a minha sobrinha só é lindona no Instagram haverá gravilha enfiada no cú.

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