“Ou limpas esse prato ou levo-te para as Penhas Douradas”

Quando eu era garoto, fazia questão de me portar mal pelo menos uma vez de 15 em 15 dias. Queria sobretudo que o meu pai tivesse orgulho em mim e que a minha mãe tivesse sempre alguma coisa para contar no cabeleireiro. Basicamente, eu sentia necessidade de dar aos meus pais uma bagagem saudável de argumentos para que não fossem apanhados desprevenidos nos concursos de casais, sobretudo na rubrica recorrente “O meu filho faz mais disparates do que o teu”. Assim, pelo menos uma vez de 15 em 15 dias, eu partia um vidro a jogar à bola, puxava um rabo a um gato, abria uma cabeça a um amigo à pedrada, baldava-me à catequese ou coisa assim do género. Quando ficava sem ideias, ia sempre buscar inspiração às Lições do Tonecas ou mandava o meu irmão empurrar alguém de uma bicicleta abaixo em meu nome. Deus me livre de o meu pai ficar sem assunto na taberna.

Uma das constantes dos meus disparates eram as ameaças da minha mãe. “Qualquer dia vendo-te na feira” ou, quando eu não queria comer os verdes “Ou comes tudo ou dou-te aos ciganos”. Eu não sei se a minha mãe foi a muitas aulas do Curso das Mães, mas aqueles argumentos nunca me causavam grandes arrepios. E lá íamos vivendo. Eu fazia a minha marotice de duas em duas semanas, os meus pais tinham sempre assunto e eu nunca chegava realmente a ser vendido na feira ou entregue aos ciganos. É verdade que durante uns tempos andei na linha. A cabeleireira morreu e a minha tia passou a cortar o cabelo à minha mãe em casa. O meu pai, a conselho do médico e do padre, deixou de parar na taberna (acho que o vinho lhe causava otites). De maneiras que não tinha motivos para andar a fazer disparates. Mas passado uns tempos os meus pais decidiram pôr telefone em casa e eu tive de voltar a ser um criminoso. Ia lá deixar o meu pai pendurado quando o meu avô lhe perguntava “Então e os rapazes, andam-se a portar bem?”. Uma vez cheguei a apanhar a minha mãe a chorar ao telefone quando falava com a minha tia Graciela porque o meu primo Jorge se tinha pendurado no estendal da roupa e a minha mãe só disse “Por aqui os rapazes estão bons”. No dia a seguir, acordei bem cedo, vesti a roupa de ir ver a Deus e preguei uma rasteira ao primeiro parvalhão que apanhei. Ainda hoje, quando me cruzo com o Tó Zé ele faz questão de me lembrar que aqueles seis pontos que tem no queixo, e onde a barba não cresce, são culpa minha. Cheguei a casa, contei o que se tinha passado, levei dois chapadões bem dados e a minha mãe saiu-se com esta “Ou vais lá pedir desculpa ao Tó Zé ou levo-te para as Penhas Douradas”. Borrei a cueca. A minha mãe tinha-me ouvido a rezar na noite anterior. “Deus, leva calor aos meninos das Penhas Douradas porque eles rapam muito frio”, pedia eu de joelhos antes de me deitar. Eu ouvia todos os dias o Antímio de Azevedo “Lisboa 24, Porto 20, Faro 27, Penhas Douradas 3”. Aquilo dava-me uma pena. Até no verão, quando ia à Praia da Torre eu pensava “Eu aqui a dar mergulhos e os meninos das Penhas Douradas de cachecol e galochas”. Eu nem sabia o que era uma penha, mas aquele nome causava-me o pânico.

Nos meses seguintes, eu ainda tentei chamar gorda e feia a uma menina ou até deixar a porta da capoeira aberta, mas a minha mãe cada vez me ameaçava com maior frequência que me entregava às autoridades das Penhas Douradas. Resolvi acabar com aquela vida de delinquente sem rumo. Os meus pais passaram a ter duas opções: ou deprimiam ou inventavam histórias da cabeça deles para não ficarem sem assunto, mas para as Penhas Douradas é que eu não ia!

Muitos anos mais tarde fui à serra da Estrela e dei um salto às Penhas Douradas. Levei um soco no pâncreas quando descobri: ninguém vive nas Penhas Douradas. Ninguém. Fiquei lívido. Eu podia ter dado tantas alegrias aos meus pais…

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