Divison Bell: foi há bint’anos

Sabemos que estamos a ficar velhos quando alguém nos pergunta “sabias que o Divison Bell faz hoje 20 anos?” e nós “porra, já?”.

Já. O álbum saiu numa altura em que a coisa mais parecida com pirataria era gravar um disco numa cassete. Nesse tempo eu ainda andava a brincar aos guitarristas, longe de imaginar a estrela de rock ‘n’ roll mundial em que me viria a tornar. Era quando o Top + ainda tinha algum interesse e credibilidade porque ainda não havia artistas como o Emanuel ou o Toni Carreira a pagar do seu bolso 30.000 discos antes de eles estarem sequer à venda para entrarem diretamente para o número 1.

Sempre achei que o Division Bell era um álbum para guitarristas porque, digamos a verdade, as canções não são assim tão incríveis. Mas os solos do Gilmour eram um regalo para o ouvido porque a gente conseguia perceber todas as notas. Os solos do Gilmour tinham introdução, desenvolvimento e conclusão, e conseguíamos perceber a história toda sem adormecer pelo meio ou ficar meio confusos com personagens a mais. Claro que os puristas vinham frequentemente com a crítica “Isto sem o Roger Waters não é nada!”. Eu, que ainda não tinha feito a viagem até ao centro histórico dos Pink Floyd, não percebia bem o que eles queriam dizer (o Dark Side of the Moon, o Animals, o The Wall e tantos outros só viriam depois).

Deve ter sido um dos cinco álbuns que mais vezes ouvi na vida e, tempos houve, em que tinha todos os solos na ponta das unhas. A tour deste disco trouxe os Pink Floyd pela primeira vez a Portugal e a história ficou contada em dois estádios de Alvadade esgotados, inédito até à altura e irrepetível desde então. Até a Volkswagen viu uma possível fonte de receitas numa simbiose com a banda, lançando o Golf Pink Floyd.

Só por causa disso, estive a ouvi-o há pouco de uma ponta à outra. Durante uma hora voltei a ter 16 anos e descobri que os dedos ainda sabem o caminho até ao último parágrafo. E lembrei-me do Richard Wright. Tenho tantas saudades dele.

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Crise até na criminalidade: estamos mesmo a bater no fundo

O Relatório Anual de Segurança Interna apresentado ontem mostra números que me deixam profundamente embaraçado enquanto português. Ao que parece, 2013 foi o ano em que a criminalidade atingiu o valor mais baixo da última década. Isto espoleta em mim um sentimento de vergonha desmedido, ai espoleta, espoleta. Então mas já nem na prática da ruindade nós conseguimos apresentar números decentes? Mas onde é que este país vai parar?

Homicídios, desceu. Roubos por esticão na via pública, desceu também. Ofensas à integridade física, uma tristeza. Assaltos a ourivesarias, uma vergonha. Roubos de viaturas, números deprimentes. Não me digam que são as forças de segurança que, sem aviso, se tornaram mais eficientes? Não, a mim não me enganam com essa. Estamos a bater no fundo e essa é que é a verdade. Eu bem vejo as filas de delinquentes deprimidos à porta dos consultórios.

Mas, apesar deste surto que abala o mundo do crime, ainda há esperança. Os números apontam para aumentos nos roubos a postos de abastecimento, em transportes públicos e a estações de CTT. Junte-se ainda o aumento considerável na violência doméstica, mas estes números até eram escusados. Se tivermos em conta todas as derrotas que o Benfica teve o ano passado, naturalmente que uma boa parte das causas da crueldade no lar ficam mais que identificadas. A outra parte, deve-se, como é óbvio, à diminuição da criminalidade. Este é um problema real, mas ninguém fala nisto. Com naturalidade, o criminoso, não tendo sucesso na sua atividade profissional, tem de chegar a casa e arrear em alguém.

“Filho, vai para o teu quarto que o teu pai está a chegar com cara de quem não conseguiu assaltar a repartição de finanças. Enche o balde e põe a esfregona a jeito para eu limpar a sujeira no final.”

“Mulher, vai-te pondo apta para seres vilipendiada que eu ia para matar o Saraiva à sacholada, mas tive um ataque súbito de consciência.”

 “Mor, traz-me os chinelos, uma cerveja e o cinto que eu preciso de agredir. Mais um dia em que nem passei da porta da relojoaria do Sr. Pinto.”

 

Só não vê quem não quer.

Sou pobre mas é porque eu quero!

Os meus pais podiam ter tido tudo. Podiam ter viajado, podiam ter comido nos melhores restaurantes, podiam ter tido casas de férias no Algarve, podiam ter comprado os detergentes para a roupa mais caros, mas nunca quiseram. Nunca aceitaram grandes aumentos de ordenados por caridade para com as entidades patronais. Trabalharam de sol a sol uma vida inteira, sempre determinados a manter um estrato bancário digno de um pobre por opção. Fizeram das tripas coração para que faltasse sempre alguma coisa lá em casa: ora deixavam acabar o leite, ora faltava o pão, ora nos cortavam a luz por falta de pagamento.

Quando chegou a altura de comprar o primeiro carro, o meu pai, em vez de comprar um Ford Cortina, optou por um Fiat 128 usado. A primeira coisa que fez foi raspar com uma faca o autocolante “não me siga que eu ando perdido” que já vinha do antigo dono. Foi a uma gráfica e lá mandou fazer um com o refrão “sou pobre mas é porque eu quero”.

Nas alturas em que o meu irmão fazia birra porque queria um Playmobil, eu, que já era mais velho e experiente, tratava logo de lhe esticar a voz:

– Seu estúpido, tu não vês que nós não compramos essas coisas?

Ele custava-lhe a perceber que não pudéssemos ter brinquedos.

– Nós podemos, otário! Nós é que não queremos. E se estás com coisas, mais valia teres nascido numa família de classe média.

Um dia, a minha mãe chegou a casa com um vestido novo. Coisa simples, azeda mesmo. Era castanho e verde, tinha um corte tosco, a bainha estava ainda por fazer e já lhe faltava até um botão. Tinha-lhe saído numa rifa na quermesse da igreja.

– Onde é que tu pensas que vais vestida dessa maneira? Tu não tens vergonha?

– Mas marido, é o casamento do teu filho.

– Nem que fosse o casamento do Papa! Aquela saia toda ruça que tens ali não dá bem com a camisa que era da tua avó? Olha que essa…

No dia do casamento do meu irmão, o meu pai era todo sorrisos. O copo d’ água foi na taberna do Alcides que fechou a casa só para o evento. O meu pai, pobre por opção, foi de fato de treino e ténis, o mesmo que já tinha levado a duas primeiras comunhões, três batizados e uma missa de corpo presente.

Hoje, o meu pai é um homem reformado. Fez tudo o que estava ao seu alcance para se reformar o mais cedo possível de modo a ter a maior penalização admissível na reforma. Ao fim de tantos anos, comprou finalmente uma televisão lá para casa, uma ITT a preto e branco daquelas com um pinchavelho laranja para sintonizar os canais e com uma tela azul para falsear as cores. À noite, a minha mãe arruma-se no sofá e todos os dias acrescenta mais uma letra no ponto cruz que anda a fazer para o enxoval da minha sobrinha. O meu pai fez-lhe uma agulha de uma vareta de um guarda-chuva e, para ter linha, desmanchou uma camisola que alguém deitou fora. Mais uma semana e a frase fica completa: “sou pobre mas é porque eu quero”.

Câmara do Porto contribui para o aumento do desemprego

Então toda a gente sabe que neste país uma das poucas coisas que aumenta é o desemprego e vão-me mandar fábricas abaixo? Então mas isto tem algum jeito? Rui Moreira e o seu enxame de engravatados da Câmara do Porto decidiram que estava na altura de estoirar com as fábricas para os lados do Bairro Dr. Nuno Pinheiro Torres (ainda por cima um bairro com doutoramento). Edifícios abandonados, com certeza, mas que ainda geravam postos de trabalho. Então mas o que vai ser dos traficantes de droga que ali vergavam a mola dia e noite? Aquilo é gente que quer trabalhar, que precisa de pôr pão na mesa, que tem contas para pagar. Penso que a maioria já teria anos de desconto suficientes para beneficiar do fundo de desemprego, mas é por causa destas merdas que quando eu e tantos outros atingirmos a velhice já não haverá dinheiro para reformas.

Ai a precariedade, a crise, o desemprego e o camandro! Isto é gente que passou anos a investir na sua formação, com pós-graduações e mestrados. E agora? O que vai ser das famílias desta gente? Depois queixam-se que a nossa mão-de-obra especializada acaba por não ter outra opção senão emigrar. É triste.

Como é que foste capaz?

Foi ontem, já o prédio todo dormia. Estava em casa a engraxar os meus sapatos para levar à primeira comunhão da filha da dona Eunice que mora do outro lado da praceta. Começo a ouvir um berreiro misturado com soluços. Ela estava aflita.

– Mas que é que se passa prai? Estás outra vez com afrontamentos?

As agonias e os prantos tornaram-se ainda mais fortes. De repente, lembrei-me. «Que fui eu fazer?». Dobrei a voz.

– Tem calma, já estou aqui na cozinha. Daqui à sala é um pulinho.

Corri que nem um Bolt pela casa fora. 30 metros quadrados nunca me pareceram tão longos. Atirei-me ao sofá, agarrei no comando e carreguei no off.

– Pronto, pronto, já passou. Eu estou aqui.

No ecrã da minha televisão podia ler-se:

“Não me queixo quando me enfias cabos e mais cabos nas minhas entranhas. Vou tolerando a tua falta de paciência para me limpares o pó. Tenho saudades do teu toque e uns ciúmes danados do comando, mas compreendo que sejas um produto da sociedade sedentária. Mas por favor: não me voltes a deixar ligada na TVI”.

Liguei à dona Eunice e disse-lhe que estava com problemas em casa e que não podia ir à primeira comunhão da garota.

Geração like: as conversas possíveis (tomo 2)

Uma vez mais, duas adolescentes que preferem remeter-se ao anonimato…

– A Ticha acabou de alterar o seu estado para “É complicado”.

– Tipo, será que se chateou com o Pedro?

– Olha, agora postou “Ticha está a sentir-se desanimada”.

– Coitada. Deixa ver se ela está no messenger.

– Não, esquece. Acabou de escrever “Ticha sente-se mais animada”.

– Ah, não deve ser nada.

– Oi?! Acabou de alterar o estado civil para “viúva”.

– …

– …

– Tipo…será que matou o Pedro?

– Olha agora diz “Para mim estás morto”.

– Faz like! Faz like!

– Voltou a alterar o estado civil.

– Outra vez?

– Sim. “Ticha está numa relação com Pedro”.

– Ah, devem estar só a discutir.

Bilionésimos de trilionésimos e pumba! sai um universo para a mesa 3

Ao que parece, finalmente apareceram as cassetes de vídeo dos primeiríssimos instantes da criação do universo. Este tempo todo o Fernando Mendes tinha-as enfiadas nas nalgas. 13.800.000.000 de anos com cassetes de vídeo enfiadas no rego é crise severa de hemorroidas e a coisa já não se remedeia com unguentos nem baba de caracol.

A coisa foi descoberta por um grupo de cientistas americanos. Mas há outros? Toda a gente sabe que estas coisas só se revelam na América e só os cientistas desta nação é que estão habilitados para atingir estas macacadas. E o que é que eles dizem? Que viram o eco. Pausa para refletir. Só eu é que acho que esta frase tem graves problemas sintáticos e semânticos?

Mas há mais. Primeiro o universo era do tamanho de um fio de cabelo e depois em apenas apenas um décimo de bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de segundo…catrapimba! milhares de milhares de milhões de planetas, calhaus, mas tudo muito sujo, cheio de pó, e num ambiente muito depressivo, tudo às escuras.

Ontem: só sabíamos o que tinha acontecido 380.000 anos depois do “rebenta a bolha”. Hoje: já sabemos o que aconteceu depois da fração de segundo mais humilde de sempre (uma centena de trilionésimos e trilionésimos de segundo). Olha que isto de um dia para o outro aprende-se muita coisa.

Primeiro não havia nada, depois alguém deu um peido para dento de uma bimbi e já era tudo. Mas andamos a brincar aos universos ou quê? Querem que eu acredite nisto? Ó pá, não brinquem comigo. Esta história está cheia de buracos. 

Festival Eurovisão: desta vez trazemos o caneco

Eu acho que desta a vitória não nos escapa. Já ouvi a “canção” uma vez e meia (a segunda tive de interromper para fazer a leitura do contador do gás) e rais ma parta se isto não vai ser uma limpeza. Há alguns versos que eu acho que podiam ser mais trabalhados, mas ele há coisas do Bob Dylan e do Van Morrison que eu também nunca percebi bem por isso vou-me deixar estar calado.

Em minhas asas eu quero levar-te ao céu

E em meu nu beijar-te em tudo o que é meu

Eu quero ser o teu cupido de paixão

Eu quero ser a dona do teu coração

 

Eu quero ser tua oh oh oh oh oh

Eu quero ser tua oh oh oh oh oh

Eu quero ser tua como o sol do seu brilhar

Eu quero ser tua como o rio é do seu mar

 

Eu quero ser tua oh oh oh oh oh

Eu quero ser tua oh oh oh oh oh

Eu quero ser tua como o mel do teu beijar

Eu quero ser tua eu nasci para te amar

 

Eu quero ser a luz que guia o teu caminho

Quero levar-te o doce mundo do carinho

Quero banhar-me no teu corpo de prazer

E saciar a minha sede de te ter

 

Estive uns bons 5 minutos a tentar recordar-me da utilidade do Festival da Canção, mas depois assoei-me e passou. Mas o nome “canção” continuava a ecoar. “Canção….canção….canção”. Mas eu não dei conta de nenhuma. Estranho. Isto se calhar é um daqueles festivais modernos que fazem para aí tipo Festival da Sardinha, mas no fundo só servem carapaus e solha. Ou daqueles festivais de cinema em que compramos bilhete mas somos encaminhados por moças de saia travada até às galerias do Campo Pequeno para ver tourada. Também já ouvi dizer que há uns festivais de música em que a malta compra o passe dos três dias, chega lá com a tenda às costas e muita droga no bolso e afinal aquilo não é para ver bandas, mas sim para apanhar azeitona. Deve ser tipo do género.

Cheira-me que, com este tema, até a Argentina e a Indonésia tem maiores possibilidades do que nós de ganhar a Eurovisão.

 

O melhor remédio para a prisão de ventre (ou para a constipação como dizem os ingleses)

Eu sou internacionalmente famoso devido ao meu trânsito intestinal. As revistas da especialidade como a Super Interessante ou a Caras publicaram já, por mais que uma vez, investigações exaustivas sobre a regularidade britânica do meu exercício. A minha pontualidade no que toca ao defecar é de tal forma intransigente que a minha vizinha de cima acerta o relógio pelo ruído provocado pelo autoclismo. Há poucos dias recebi mesmo um pedido para uma entrevista de um estudante universitário cuja tese de mestrado anda à volta da íleo-cecal, a válvula que separa o intestino delgado do intestino grosso.

De vez em quando, sobretudo em alturas de maior ansiedade quase sempre provocadas pela queda dos meus pelos da sovaqueira, lá calha ter maior dificuldade em evacuar. É raro, mas acontece. Há quem diga até que a minha privação de sanita é indício de mau tempo, como aquelas velhas que sentem cotocadas nos ovários dois dias antes de chover. Os laxantes a mim não me fazem nada, é o mesmo que coçar o rabo com uma urtiga. Nessas alturas tenho mesmo de optar por medidas extremas.

– Sr. Armando, dê-me um Ventil e o Correio da Manhã, faz favor.

– Correio da Manhã? Mas anda outra vez aflito?

– É. Lá calha. Mas isto vai.

– Vou já ligar à minha Maria para pôr roupa a estender hoje.

Hoje estou num desses dias. Após o banho, reparei que tinha a toalha cheia de pelos das axilas e fiquei logo em tormentos. Mas estou já aqui a esgravatar o CM e cheira-me que já não dura muito. Basta-me ler a gordas para recuperar o equilíbrio.

“O talho de Manuel Mota foi ontem vandalizado pela 3ª vez”

“Agrediu vítima à coronhada com a arma de serviço”

“Mulher foi anteontem ao hospital com ferimentos, Partiu o nariz.”

 “Assassina irmã”

“Mata o pai a tiro”

“Choque brutal destrói família”

“Menino cai na escola e fica em estado grave”

“Homem bebeu a própria urina – sobrevive quatro dias num túmulo”

“Cadela buzina para chamar os donos”

“Kate grávida pela sexta vez”

“Ciclista com 3,60 g/l”

“Fica com faca no pescoço”

Acho melhor nem ir à revista porque se não já nem chego à casa de banho.

Conversas sobejamente improváveis

– Amor, estás a dormir?

– Não digo.

– Vá lá, estás a dormir ou não?

– Já te disse que não digo.

– Estou cá com uma vontade…

– Sabes bem que estou com o período.

– Mais valia dizeres que estavas a dormir.

(…)

– Onde é que foste?

– Fui mijar.

– Ainda te apetece?

– Não sei…agora já não.

– Mais valia dizeres que foste bater uma.

– Por favor, eu nem demorei dois minutos.

– Costuma ser suficiente.

– Humpf!

– Olha, muda aí de canal.

– Muda aí de canal? Mas a televisão nem está ligada.

-Oh!

– Bah!

– Ainda aí há preservativos.

– Acho que sim. Porquê?

– Dá aí um. Vou só aqui abaixo ao vizinho do 1º frente ver se lhe apetece.

– Aproveita e pergunta-lhe se amanhã sempre quer ir ao bingo.