House of Cards: o lugar deixado vago por Tony Soprano tem novo dono

– O teu irmão foi para Paris e o melhor que tu consegues é brincar ao Carnaval e ficar agarrado à televisão a ver o final da 1ª temporada do House of Cards? Tu não tens vergonha? Faz-te um homem, pá!

Gosto muito do meu tio, mas ele às vezes consegue ser bera. Tentei explicar-lhe que não ando bem de finanças e que tenho de poupar para a limpeza da piscina para o chegar do verão, mas ele quando quer é tão surdo como um playmobil. O argumento das finanças não o calou e eu tive de jogar sujo. Afinei, pronto. E então expliquei-lhe:

Desde o cair do pano dos Sopranos que a cadeira estava vaga. O lugar de homem mais assustador da televisão americana estava entregue ao pó e já havia por aí uns desesperados a querer entregá-la àquele chavaleco louro (mete nojo) do Game of Thrones. Felizmente, chegou o Kevin Spacey e disse ao puto para ir brincar aos pais e às mães.

Em House of Cards, Kevin Spacey é Frank Underwood, congressista americano que fica puto da vida quando, após a eleição do presidente dos EUA, o lugar de secretário de estado que lhe havia sido prometido é entregue a um sujeitinho qualquer sem tarimba. Após a desilusão e uma noite inteira a fumar cigarros à janela ele toma a decisão inevitável: vou lixá-los a todos. Bom, a partir daí o melhor é sair da frente porque no coração daquele homem não habita nem remorso nem caridade. Todas as decisões são tomadas com agenda mesmo quando tal não é imediatamente evidente. Este rolo compressor humano é tipo MacCgyver: usa o que tem à vista e quando não tem, inventa. Confiança inabalável, manipulação exímia e expressão facial tipo “you don’t want to fuck with me” são algumas das suas qualidades enquanto pessoa. Jornalistas ambiciosos e congressistas fracos de espírito são bolas de trapos com as quais ele brinca como quer e enquanto lhe apetece. Quando já não quer brincar mais, atira-as para o outro lado do muro para mais ninguém jogar.

A relação com a esposa, Robin Wright (a namorada do Forrest Gump), é hipnótica. Os diálogos reduzidos ao mínimo, os silêncios partilhados no escuro da noite junto à janela, a declarada abertura para o “vou ali comer uma gaja e já volto”…tudo é brilhante. Estes dois foram feitos um para o outro.

A única pessoa em quem ele confia é mesmo o espetador. Vira-se para a câmara e fala mesmo para nós. É como se fosse uma gaja boa com enormes seios que decide abrir desabotoar a camisa. E nós ali ficamos, a contemplar, ansiosos para ser tão enganados como fomos com o Keyser Soze.

O Presidente Obama já declarou o seu amor incondicional a esta série, implorando mesmo a total ausência de spoilers. Comentadores políticos já fizeram saber que 99% de todo o esterco que se pisa nas cenas filmadas tem o mesmo cheiro nos corredores no congresso e da Casa Branca.

– O teu irmão está em Paris e tu vens-me falar de política?

Desisto.

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