Como é que foste capaz?

Foi ontem, já o prédio todo dormia. Estava em casa a engraxar os meus sapatos para levar à primeira comunhão da filha da dona Eunice que mora do outro lado da praceta. Começo a ouvir um berreiro misturado com soluços. Ela estava aflita.

– Mas que é que se passa prai? Estás outra vez com afrontamentos?

As agonias e os prantos tornaram-se ainda mais fortes. De repente, lembrei-me. «Que fui eu fazer?». Dobrei a voz.

– Tem calma, já estou aqui na cozinha. Daqui à sala é um pulinho.

Corri que nem um Bolt pela casa fora. 30 metros quadrados nunca me pareceram tão longos. Atirei-me ao sofá, agarrei no comando e carreguei no off.

– Pronto, pronto, já passou. Eu estou aqui.

No ecrã da minha televisão podia ler-se:

“Não me queixo quando me enfias cabos e mais cabos nas minhas entranhas. Vou tolerando a tua falta de paciência para me limpares o pó. Tenho saudades do teu toque e uns ciúmes danados do comando, mas compreendo que sejas um produto da sociedade sedentária. Mas por favor: não me voltes a deixar ligada na TVI”.

Liguei à dona Eunice e disse-lhe que estava com problemas em casa e que não podia ir à primeira comunhão da garota.

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