Sou pobre mas é porque eu quero!

Os meus pais podiam ter tido tudo. Podiam ter viajado, podiam ter comido nos melhores restaurantes, podiam ter tido casas de férias no Algarve, podiam ter comprado os detergentes para a roupa mais caros, mas nunca quiseram. Nunca aceitaram grandes aumentos de ordenados por caridade para com as entidades patronais. Trabalharam de sol a sol uma vida inteira, sempre determinados a manter um estrato bancário digno de um pobre por opção. Fizeram das tripas coração para que faltasse sempre alguma coisa lá em casa: ora deixavam acabar o leite, ora faltava o pão, ora nos cortavam a luz por falta de pagamento.

Quando chegou a altura de comprar o primeiro carro, o meu pai, em vez de comprar um Ford Cortina, optou por um Fiat 128 usado. A primeira coisa que fez foi raspar com uma faca o autocolante “não me siga que eu ando perdido” que já vinha do antigo dono. Foi a uma gráfica e lá mandou fazer um com o refrão “sou pobre mas é porque eu quero”.

Nas alturas em que o meu irmão fazia birra porque queria um Playmobil, eu, que já era mais velho e experiente, tratava logo de lhe esticar a voz:

– Seu estúpido, tu não vês que nós não compramos essas coisas?

Ele custava-lhe a perceber que não pudéssemos ter brinquedos.

– Nós podemos, otário! Nós é que não queremos. E se estás com coisas, mais valia teres nascido numa família de classe média.

Um dia, a minha mãe chegou a casa com um vestido novo. Coisa simples, azeda mesmo. Era castanho e verde, tinha um corte tosco, a bainha estava ainda por fazer e já lhe faltava até um botão. Tinha-lhe saído numa rifa na quermesse da igreja.

– Onde é que tu pensas que vais vestida dessa maneira? Tu não tens vergonha?

– Mas marido, é o casamento do teu filho.

– Nem que fosse o casamento do Papa! Aquela saia toda ruça que tens ali não dá bem com a camisa que era da tua avó? Olha que essa…

No dia do casamento do meu irmão, o meu pai era todo sorrisos. O copo d’ água foi na taberna do Alcides que fechou a casa só para o evento. O meu pai, pobre por opção, foi de fato de treino e ténis, o mesmo que já tinha levado a duas primeiras comunhões, três batizados e uma missa de corpo presente.

Hoje, o meu pai é um homem reformado. Fez tudo o que estava ao seu alcance para se reformar o mais cedo possível de modo a ter a maior penalização admissível na reforma. Ao fim de tantos anos, comprou finalmente uma televisão lá para casa, uma ITT a preto e branco daquelas com um pinchavelho laranja para sintonizar os canais e com uma tela azul para falsear as cores. À noite, a minha mãe arruma-se no sofá e todos os dias acrescenta mais uma letra no ponto cruz que anda a fazer para o enxoval da minha sobrinha. O meu pai fez-lhe uma agulha de uma vareta de um guarda-chuva e, para ter linha, desmanchou uma camisola que alguém deitou fora. Mais uma semana e a frase fica completa: “sou pobre mas é porque eu quero”.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s