Dos mármores de Mafra à grandiosidade de Gatsby

As saudades que eu tinha de ler frases curtas! Ora aí está uma frase que não tenho memória de alguma vez ter usado. Contextualizando, eu vinha de uma semana de vírgulas e pontos, vírgulas e pontos, vírgulas e pontos. As palavras entre as vírgulas e os pontos amontoavam-se em assuntos, dentro de temas, dentro de tópicos, dentro de ideias, dentro de mais ideias, dentro de considerações, dentro de julgamentos, dentro de argumentos. Eu vinha de uma prosa laboriosa (não confundir com enfadonha) e sagaz (não confundir com excessivamente complexa). Eu vinha dos mármores de Mafra, do coto de Baltasar, da visão tipo infravermelhos de Blimunda, das vontades do povo, do sonho de Bartolomeu, da arrogância de João V, dos castigos pela fogueira.

Que dizes, Blimunda, Que te amo, Baltasar, Mesmo sendo eu maneta, Ainda assim, sendo tu maneta, Porque não olhas para mim, Blimunda, Não tenho nada no estômago ainda e jurei que nunca te veria por dentro, Quantas vontades recolheste já para a passarola, Umas 1000, falta ainda outro tanto, Pega no frasco, vamos dar mais uma volta entre os doentes da peste para ver se o engenho sempre voa.

Eu gostava de ter um motivo mais sexy para justificar o adiamento de tantos anos para ler Memorial do Convento

Eu fiz o exame sem ler o livro e passei. Li os resumos da caixa de óculos da turma e safei-me.

mas a verdade é que, nos meus tempos de secundário, as obras de leitura obrigatória eram outras e desde então fui sempre metendo outras leituras pelo caminho.

Findo o Memorial, encaminhei-me para a história de Jay Gatsby para perceber, afinal de contas, o fascínio que esta obra provoca há perto de 90 anos. Eu percebo tanto de crítica literária como de lagares de azeite, nem é para isso que cá estou, mas quer-me parecer que Fitzgerald conseguiu uma cena super-hiper-mega-in your face: se este livro fosse uma pauta musical, dificilmente se conseguiria encontrar uma pausa ou uma semínima a mais. É um exercício obsceno (leia-se desnecessário) tentar encontrar palavras a mais ou ideias a menos. Os simbolismos associados à crítica social apontada pelo autor aos loucos anos 20 são brilhantes, mas isso deixo para quem perceba realmente do assunto. O romance é dotado de uma prosa laboriosa e sagaz (onde é que eu já ouvi isto?) e às primeiras páginas percebemos de imediato que algo de muito sério se vai ali passar. Gatsby, o personagem, sempre é grande, como diz o título? Não me parece. Mas o romance, porra, é brilhante.

Jogo do título: o antes e o depois

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O antes

São agora 14h25. Os media e as redes sociais estão forradas a vermelho. Atropelam-se os diretos para as imediações do estádio onde se recolhem os testemunhos possíveis e os sorrisos daqueles que conseguem bilhete à última da hora. Concluem-se as pinturas dos cartazes com os chavões habituais e acumulam-se as piadas que reúnem Jesus, o treinador, e Jesus, o salvador. Assim não fosse e creio que muita gente nem se recordaria que hoje é domingo de Páscoa.

Tive a sorte de conseguir dois bilhetes que me custaram apenas 354 obrigados, que ainda assim me pareceram insuficientes. Daqui a pouco vestirei a minha camisola do Benfica, colocarei ao pescoço o cachecol de anos (que nunca foi à máquina de lavar por superstição). Depois disso colocarei pés ao caminho que hoje é dia de ir a pé para o estádio, não sem antes passar pela bomba de gasolina para comprar um maço de tabaco extra.

Nunca fiz do futebol nem cura, nem doença. Sou, antes que tudo, fã do efeito congregador que este desporto provoca, num país em que cada vez me parece mais que as pessoas não gostam de futebol – gostam, sim, do seu clube. Nunca fiquei de chibo amarrado com uma derrota por mais do que 20 minutos. Bom, talvez tenha dedicado um tempo extra à agonia do perder quando Portugal desperdiçou o título de campeão europeu em 2004 para a Grécia. Ainda hoje me pergunto: mas o que é a Grécia?

O depois

00.44 Somos campeões! Não alinhei na romaria ao santuário de Nossa Senhora do Marquês, porque, confesso, tenho uma estranha forma de celebrar títulos e conquistas: o que me dá realmente gozo é o caminho até à meta e não a permanência fátua em palanques. Finda a entrega da taça, o cliché “dever cumprido” é a maior fonte de contentamento que posso ter.

Estar presente na bancada de olhos postos no palco onde tudo se dá, provoca uma curiosa sensação: parece que só quem está no estádio é que é campeão. Sabemos que as pessoas já enchem de vermelho as ruas vazias de Páscoa, mas é ali, dentro daquela tenda de circo, que tudo acontece, que tudo se experimenta elevado ao expoente da alienação.

Somos campeões!

Europeias 2014: para que é tanto partido?

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Dezasseis? De verdade? Numa altura em que se fala de acentuada quebra da natalidade, então mas os partidos agora andam a fazer filhos? MAS? PDA? POUS? PTP? PPV? Quem são estes gajos? Ondem é que eles arranjaram assinaturas para isto? L? A sério, L? Um partido só com uma letra? Sai meio quilo de criatividade para o partido do canto. Um partido ou começa com a letra P ou não é partido, não me venham com conversas. Pronto, está bem, aceita-se a CDU, mas só porque a Heloísa Apolónia consegue ser uma mulher muito sexy quando usa vestidos de cocktail.

Não esperem que daqui até 25 de maio eu me consiga inteirar das propostas que tenham para levar para Bruxelas. Não dá para fazer um resumo? Ou melhor ainda, desenvolver um processo, assim tipo por osmose, para diminuir a coisa para 4 ou 5 quadradinhos?

Candidatos: vós é que sabeis, mas ou arranjam um manual de instruções para a gente saber ao que vindes, nem que seja umas snapshots da wikipédia, ou comecem a rezar para que chova, caso contrário a malta vai mesmo toda para a praia.

PR não discursará nas comemorações do 25 de abril

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O Presidente da República dirigiu-se ontem ao país confirmando os rumores que indicavam que teria perdido o direito a discursar nas comemorações dos 40 anos do 25 de abril.

«Portuguesas e portugueses, à semelhança dos capitães de abril, fiquei igualmente de fora da lista de convocados. No entanto, não deixarei de estar presente e tentarei dar o meu melhor para o ano voltar a fazer parte das opções do mister.»

A notícia foi já confirmada pela Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves.

«As pessoas querem ver outras coisas. Entre os cargos de primeiro-ministro e de presidente da república o professor Cavaco já falou mais de uma dezena de vezes. Comuniquei-lhe a notícia, tal como havia feito com os capitães de abril, sem brio e completamente convencida que falava apenas enquanto a cidadã Assunção, filha pródiga de Valpaços.”

Assunção Esteves não adianta muitos detalhes, mas levanta apenas a ponta do véu.

«Encomendei-lhe um espetáculo com jiboias. Ao princípio ele não achou muita graça, veio-me com a história de ser a mais alta figura de estado e outros argumentos tolos. Mas depois de ver os vídeos que lhe mandei da Britney, achou que podia ser uma rica ideia.»

Refere ainda:

«E o Passos que se cuide que a Isabel Jonet está morta por dizer meia dúzia de disparates. Por enquanto só lhe dei autorização para mandar uma camioneta de escuteiros para distribuir sacos do Banco Alimentar nas escadarias de São Bento.»

Perfil de assassino: eu tenho, tu tens, ele tem

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Desenvolve-se em mim, gradualmente, o receio de um dia destes vir a cometer um crime violento, daqueles que aparecem nas notícias e tudo. As evidências que apontam para a possibilidade de eu ter perfil de assassino começam a ser extremamente ruidosas: sou um gajo simpático com quase toda a malta do bairro, costumo dar os bons dias, as boas tardes e as boas noites aos vizinhos, é frequente passar pelo barbeiro e ficar por lá a fazer de conta que sei falar de bola, já dei catequese, apanho sempre o cocó do cão para dentro de um saco, apanho o meu cocó para dentro de outro saco, porto-me bem nas reuniões de condomínio e houve até uma vez em que segurei a porta do elevador enquanto a Dona Virgínia abria a caixa do correio para ver se já lhe tinha chegado o cheque da pensão.

Portanto, enquanto pessoa sou tipo a Finlândia. Não chateio ninguém, ninguém me chateia, não falo mal de ninguém, ninguém fala mal de mim, não vou à polícia falar da casa de meninas que abriu no 6º andar há umas semanas, elas também não vão à biblioteca municipal dizer que sabem onde está o exemplar do Memorial do Convento que nunca chegou a ser devolvido. Ora isto faz de mim um potencial homicida. De verdade. É muito provável que eu venha a cometer um assassinato qualquer um dia destes e é bom que me comece a habituar à ideia.

“Que ideia disparata!” Disparatada? Atente-se ao processo habitual de um assassínio.

1.º Mata-se a vítima, seja à facada ou ao tiro. As forquilhas e as sacholas ultimamente também andam muito na moda.

2.º Leva-se a vítima já cadáver para o fresco da morgue, onde ficam guardados ao lado dos iogurtes.

3.º Prende-se o acusado do ato criminoso. Não raras vezes, acontece ter de o levar igualmente para a morgue porque depois de analisar atentamente a alarvidade que fez, acaba por ceifar a sua própria vida.

4.º Surgem as rondas da imprensa para recolher os testemunhos dos vizinhos e dos velhos da taberna. Colhem-se elogios à vítima e ausências de suspeita para com o camafeu.

“Ninguém estava à espera disto. Era um indivíduo normal. Bebia o seu copinho, vá, mas de resto era um tipo impecável. Ainda ontem fizemos uma partida de dominó. Nunca pensei que pudesse dar sete facadas na mulher.”

Os tipos que esfaqueiam, mutilam, violam, agridem, disparam, sacholam ou forquilham são sempre pessoas normais. É sempre uma surpresa colossal para todos. Nunca ninguém está à espera de um banho de sangue incitado por aquelas almas. São gente de boas contas, de bons tratos, moços muito meigos, trabalhadores e que até vão à casa de banho quando sentem vontade de dar um pum.

“Era um crápula. Devia dinheiro a todas a gente, escarrava para o chão, nunca aprendeu a apertar os atacadores, coçava os tomates à frente até do padre. Toda a gente sabia que mais cedo ou mais tarde ia dar três tiros na sogra, mas ninguém faz nada neste país”.

Nunca ouvi tal coisa. Ah, se ao menos forças da autoridade pudessem destacar mais efetivos para vigiar pessoas simpáticas e afáveis…

Queres vir brincar às barbas?

– Então mas tu agora não fazes a barba?

– Tem de ser, paizinho. Se não os outros meninos não brincam comigo.

– Não brincam contigo porquê?

– Dizem que eu tenho um ar muito lavado.

 

O meu pai tem o coração do tamanho CCB. É homem para se afeiçoar até a um pionés. Mas não há, nos seus 63 anos, registo de que se tenha embeiçado por alguma moda associada a pilosidades faciais. De resto, o meu avô, que toda a vida amanhou um digníssimo bigode, ia com frequência chorar às escondidas para a corte das vacas, massacrado de pena por o filho varão não lhe seguir as virtudes.

– Foste outra vez chorar para a corte das vacas, Fernando? – dizia a minha avó Laura. 

– Como é que sabes, mulher?

– Tens os pés todos borrados, marido.

 

Todos os irmãos do meu pai, numa ou noutra altura, apanharam o vírus do bigode. Era raro lavarem as mãos e apanhavam todo o tipo de bicheza. O meu pai, que teve quase tudo desde varicela a ataques de caspa, nunca sentiu sintomas de bigodes, peras, moscas, patilhas ou barbas. Bom, patilhas talvez, vá. Por tudo isto, o meu pai tem muita dificuldade em perceber porque raio deixei eu crescer a barba.

– Então mas brincas com as meninas.

– As meninas também não querem brincar comigo.

– Porquê?

– Porque eu só lhes quero mexer no pipi e elas não gostam.

 

Lá lhe expliquei: que se diz que as mulheres gostam, que protege dos perigos do sol, que faz bem à pele, que evita constipações, que desacelera o envelhecimento, que poupa tempo, que sai barato. Enfim, motivos de sobra para que todos os homens se corrompam pelo “brincar às barbas”. Há até dotadíssimos artesãos da pubescência, mas a metrossexualidade é coisa que em mim não se propaga. Tranquilizo o meu pai, que a mariquice de barba aparada com transferidor e fio-de-prumo não é para mim e que também não hei de chegar a Joaquin Phoenix . Na verdade, acredito que os homens que andam a brincar às barbas só incorrem em dois tipos de pecado: a preguiça e a luxúria – porque no fundo só nos interessa brincar com o pipi delas.

O meu pai não ficou convencido e disse que precisava de sair para apanhar ar. Meia hora depois, apareceu em casa com os pés cheios de esterco.

“Ter sido raptado por extraterrestres foi a melhor coisa que me aconteceu”, Matthew McConaughey

44 anos, nascido em Uvalde, Texas. Mede 1m83, calça 44 e torce pelo Aimar Futebol Clube. Diz que a coisa mais louca que fez na vida foi ter bebido vinho quente enquanto jogava Farmville. Pintou a sanita à pistola durante 5 dias. A entrevista exclusiva ao Diário Cabeceirense, conduzida por Adriano Correia, teve lugar na pensão “Up yours” de 2 estrelas da Michelin, às portas de Los Angeles.

A fama ainda o incomoda ou já se habitou?

As pessoas são quase sempre simpáticas comigo, mas às vezes não é fácil. Quando a coisa aperta muito chego-lhe um bocadinho de Halibut.

O Diário Cabeceirense elegeu-o como “o melhor ator do ano”. O que lhe parece?

All right, all right, all right! Parece-me bem entregue (risos). Cheguei a pensar que era este o ano de Keanu Reaves, mas depois ele fez aquela coisa dos Samurais…

Qual coisa dos Samurais?

Esqueça. Não vai querer saber.

É verdade que chegou a meter os papéis para a Cientologia?

É verdade, sim. Nessa altura dava-me muito com o Tom Cruise e o Travolta. Eu andava à procura de um novo rumo para a minha vida e precisava de um empurrãozinho na minha carreira. Cheguei a meter os papéis, mas em boa hora a Katie Holmes me disse que a Cientologia é como os produtos da Herbalife: aquilo é tudo uma tanga. Fiz amor com ela nessa noite.

Sahara, As minhas adoradas ex-namoradas, Como despachar um encalhado, Como perder um homem em 10 dias, são apenas alguns dos filmes de merda que fez. E, de repente, começa a fazer coisas de qualidade. True Detective, O Lobo de Wall Street e, naturalmente, O Clube de Dallas. Quer explicar às pessoas como é que isto aconteceu?

Fui raptado por extraterrestres.

Desculpe?

Fui raptado por extraterrestres. Ou por acaso pensa que tive um súbito ataque de talento? Acho que há por aí muito boa gente a achar isso, mas a verdade é esta. E foi a melhor coisa que me aconteceu.

Quer contar-nos essa experiência?

Não me lembro de muito. Recordo-me que estava em casa a encomendar 200 gramas de fiambre no Amazon. De repente, salta-me um pop up com um gaja muito boa toda nua. Cliquei. Só me lembro de estar sentado numa máquina feita de alumínio, muitas luzes a piscar à volta, e de ter um montão de tubos ligados a mim. Aquilo devia ser uma espécie de lipoaspirador porque me chuparam os músculos todos. Fiquei que parecia um pinto calçudo. Mas as criaturas verdes que lá estavam – simpáticas, por acaso – disseram que era o preço a pagar para ser um bom ator. Pelos vistos deu resultado.

Como eram esses seres?

Gente boa, pá, gente muito boa. Não percebo esse medo dos ET’s. E são parecidos connosco, tirando os três olhos, cinco braços e duas pilas.

Como é que sabe que eles têm duas pilas?

Não quero falar sobre isso.

Planos para o futuro?

Gostava de roubar o lugar ao Ben Affleck no próximo Batman, mas acho que ele está muito bem encaminhado. Não sei, é possível que O Clube de Dallas tenha uma sequela, talvez agora passado em Atlantic City.

O que é que dizem os seus olhos?

(silêncio) Nota-se muito que estive a snifar?