Amor de Perdição – eu sabia que isto ia acabar mal

Evitei enquanto me pareceu justo os corredores das livrarias onde com ele me poderia cruzar. Fugi-lhe tanto quanto aguentei até que foi ele mesmo que veio de encontro a mim. Havia já lido vezes suficientes a bula que indicava os possíveis efeitos secundários de ler o Amor de Perdição e sabia ao que ia. Dei-me como vencido e nele me perdi. Dois sopros noturnos bastaram para lhe ceifar todas as agonias, para lhe sugar todos os quebrantos, para, enfim, me sujeitar ao cunho que poderia deixar. Três dias fiquei de cama a fim de recuperar do rude golpe.

Nos primeiros capítulos, se atenta for a leitura, fica certa a ideia de que a coisa vai correr mal. É impossível sairmos da sombra do pessimismo. Quando as famílias não se dão é mais que certo: a coisa vai correr mal. À falta de exemplos mais humildes, Shakespeare já nos tinha ensinado isso.

Quando Simão Botelho se apaixona por uma moça Teresa de Albuquerque só de a ver da sua janela, sem nunca com ela ter conversado, nunca lhe ter sentido o cheiro, desconhecendo em pleno os seus vícios e virtudes é muito provável que a coisa vá correr mal. Mas os caminhos do amor são como os do Senhor: insondáveis.

O parecer de Teresa de esperar que o pai morra para depois ser livre para chafurdar livre no amor, pareceu-me logo um plano cheio de buracos, condenado ao insucesso. Por aí, a coisa também ia correr mal.

Esta coisa do cortejar por meio da palavra escrita (em boa hora este hábito partiu para o desuso) é tortura, sentença pesada a cumprir nos calabouços ou na abadia. Isto de ter sempre uma velha, exageradamente a jeito, a fazer piscinas da prisão para o convento, do convento para a prisão, não era bom prelúdio. A coisa ia mesmo correr mal.

Quando não há vergonhas passadas sobre os lençóis, carícias nas partes escondidas do corpo, quando não há um beijo sequer (é que não há mesmo), está limpo de se ver como tudo vai correr: mal.

Quando se manda um balázio nos cornos à frente de um balúrdio de gente para privar de vida o primo com quem o pai queria à força casar a doce amada e depois ali se queda, entregando-se como imediato culpado, tudo está consumado: vai correr para lá de mal.

E, no final, tudo corre mesmo mal. É assistir, sem nada poder fazer, ao fenecer, por vontade ou por fraqueza, de um após outro após Mariana e após outro.

 Camilo e Ana Plácido. Simão e Teresa. O amor destes vemo-lo nós  no título: de perdição.

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s