Perfil de assassino: eu tenho, tu tens, ele tem

monkey_assalto

Desenvolve-se em mim, gradualmente, o receio de um dia destes vir a cometer um crime violento, daqueles que aparecem nas notícias e tudo. As evidências que apontam para a possibilidade de eu ter perfil de assassino começam a ser extremamente ruidosas: sou um gajo simpático com quase toda a malta do bairro, costumo dar os bons dias, as boas tardes e as boas noites aos vizinhos, é frequente passar pelo barbeiro e ficar por lá a fazer de conta que sei falar de bola, já dei catequese, apanho sempre o cocó do cão para dentro de um saco, apanho o meu cocó para dentro de outro saco, porto-me bem nas reuniões de condomínio e houve até uma vez em que segurei a porta do elevador enquanto a Dona Virgínia abria a caixa do correio para ver se já lhe tinha chegado o cheque da pensão.

Portanto, enquanto pessoa sou tipo a Finlândia. Não chateio ninguém, ninguém me chateia, não falo mal de ninguém, ninguém fala mal de mim, não vou à polícia falar da casa de meninas que abriu no 6º andar há umas semanas, elas também não vão à biblioteca municipal dizer que sabem onde está o exemplar do Memorial do Convento que nunca chegou a ser devolvido. Ora isto faz de mim um potencial homicida. De verdade. É muito provável que eu venha a cometer um assassinato qualquer um dia destes e é bom que me comece a habituar à ideia.

“Que ideia disparata!” Disparatada? Atente-se ao processo habitual de um assassínio.

1.º Mata-se a vítima, seja à facada ou ao tiro. As forquilhas e as sacholas ultimamente também andam muito na moda.

2.º Leva-se a vítima já cadáver para o fresco da morgue, onde ficam guardados ao lado dos iogurtes.

3.º Prende-se o acusado do ato criminoso. Não raras vezes, acontece ter de o levar igualmente para a morgue porque depois de analisar atentamente a alarvidade que fez, acaba por ceifar a sua própria vida.

4.º Surgem as rondas da imprensa para recolher os testemunhos dos vizinhos e dos velhos da taberna. Colhem-se elogios à vítima e ausências de suspeita para com o camafeu.

“Ninguém estava à espera disto. Era um indivíduo normal. Bebia o seu copinho, vá, mas de resto era um tipo impecável. Ainda ontem fizemos uma partida de dominó. Nunca pensei que pudesse dar sete facadas na mulher.”

Os tipos que esfaqueiam, mutilam, violam, agridem, disparam, sacholam ou forquilham são sempre pessoas normais. É sempre uma surpresa colossal para todos. Nunca ninguém está à espera de um banho de sangue incitado por aquelas almas. São gente de boas contas, de bons tratos, moços muito meigos, trabalhadores e que até vão à casa de banho quando sentem vontade de dar um pum.

“Era um crápula. Devia dinheiro a todas a gente, escarrava para o chão, nunca aprendeu a apertar os atacadores, coçava os tomates à frente até do padre. Toda a gente sabia que mais cedo ou mais tarde ia dar três tiros na sogra, mas ninguém faz nada neste país”.

Nunca ouvi tal coisa. Ah, se ao menos forças da autoridade pudessem destacar mais efetivos para vigiar pessoas simpáticas e afáveis…

Anúncios

One thought on “Perfil de assassino: eu tenho, tu tens, ele tem

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s