Jogo do título: o antes e o depois

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O antes

São agora 14h25. Os media e as redes sociais estão forradas a vermelho. Atropelam-se os diretos para as imediações do estádio onde se recolhem os testemunhos possíveis e os sorrisos daqueles que conseguem bilhete à última da hora. Concluem-se as pinturas dos cartazes com os chavões habituais e acumulam-se as piadas que reúnem Jesus, o treinador, e Jesus, o salvador. Assim não fosse e creio que muita gente nem se recordaria que hoje é domingo de Páscoa.

Tive a sorte de conseguir dois bilhetes que me custaram apenas 354 obrigados, que ainda assim me pareceram insuficientes. Daqui a pouco vestirei a minha camisola do Benfica, colocarei ao pescoço o cachecol de anos (que nunca foi à máquina de lavar por superstição). Depois disso colocarei pés ao caminho que hoje é dia de ir a pé para o estádio, não sem antes passar pela bomba de gasolina para comprar um maço de tabaco extra.

Nunca fiz do futebol nem cura, nem doença. Sou, antes que tudo, fã do efeito congregador que este desporto provoca, num país em que cada vez me parece mais que as pessoas não gostam de futebol – gostam, sim, do seu clube. Nunca fiquei de chibo amarrado com uma derrota por mais do que 20 minutos. Bom, talvez tenha dedicado um tempo extra à agonia do perder quando Portugal desperdiçou o título de campeão europeu em 2004 para a Grécia. Ainda hoje me pergunto: mas o que é a Grécia?

O depois

00.44 Somos campeões! Não alinhei na romaria ao santuário de Nossa Senhora do Marquês, porque, confesso, tenho uma estranha forma de celebrar títulos e conquistas: o que me dá realmente gozo é o caminho até à meta e não a permanência fátua em palanques. Finda a entrega da taça, o cliché “dever cumprido” é a maior fonte de contentamento que posso ter.

Estar presente na bancada de olhos postos no palco onde tudo se dá, provoca uma curiosa sensação: parece que só quem está no estádio é que é campeão. Sabemos que as pessoas já enchem de vermelho as ruas vazias de Páscoa, mas é ali, dentro daquela tenda de circo, que tudo acontece, que tudo se experimenta elevado ao expoente da alienação.

Somos campeões!

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