Caminhada número 1

– O que você precisa é de caminhar com regularidade. – disse o meu médico quando eu me queixava, mais uma vez, das minhas dores de coluna.

– Eu já nem me lembro como é que isso se faz.

Ele ficou feito parvo a olhar para mim e disse:

– É um pé a seguir ao outro.

Ele deve ter pensado que eu estava a brincar e riu-se. Até hoje ainda não percebi a piada.

Na verdade, ele nem é médico nem é meu, mas ontem de manhã senti-me no dever de lhe dar algum crédito. Ou isso ou voltei a acordar em modo “pacote de açúcar” daqueles que têm escrito “Um dia vais caminhar porque sim. Hoje é o dia”.

Chegando ao calçadão, tive logo que me desviar de um velhote com ar de peregrino de 13 de maio que vinha a abrir e a fazer sinais de luzes. Ao fim de 5 minutos, percebi que caminhar depois das onze da manhã é mesmo à tenrinho. A essa hora, o sol já escalda (isso explicava o deserto de um calçadão que normalmente mais parece as festas da Senhora da Agonia). Ao fim de 10 minutos, já jurava nunca mais gozar com os rebanhos de gordas que andam sempre com a garrafinha de água na mão. Já estava com a garganta seca e a arranhar feito uma toalha turca esquecida no estendal. Ao fim de 15 minutos, já me doía tudo. Aos 17, descobri que afinal não me doía tudo porque já me doíam mais partes do corpo, portanto era impossível que antes me doesse tudo. Um pouco mais à frente, os meus phones morreram e foi aí que eu resolvi voltar para trás. Voltar para trás. Tinha-me esquecido dessa parte. Quando cheguei a casa só tinham passado 40 minutos. “Porra, 40 minutos. És mesmo um xoninhas”.

Chegando a casa dos meus pais, contei que tinha ido caminhar. Os olhos da minha mãe brilharam quase tanto como quando o meu irmão lhe disse que ela ia ser avó.

– Ao início, também não aguentava mais do que 20 minutos, mas ao fim de dois anos já conseguia fazer 22 minutos na boa.

Não senti que aquilo fosse um estímulo incrível, mas o meu pai também não fez melhor.

– Eu já hoje andei duas horas e meia enquanto tu estavas na cama. E no fim ainda desci e subi a escadaria do metro. 74 degraus para baixo, 74 para cima.

O meu pai cumpre tranquilamente os mínimos para os jogos olímpicos e gosta de se gabar disso. Eu, no lugar dele, faria o mesmo.

“Vai ver que no dia a seguir se sente melhor.” Recordei as palavras do “meu médico”. Estou morto por voltar a ter “consulta” para lhe dizer que é mentira. Já é o dia a seguir e não me sinto nada melhor. Acho até que poderei ter sido demasiado otimista ao numerar o meu post convencido de que haverá um número 2.

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