Eu sei lá por onde é que hei de começar a amar-te

amália  1 ano c
Sobrinha, são os teus anos! Ou como diria a tua mãe “são os teujanos”. Ou como diria o teu pai “paaaaah!”. Parece que foi a semana passada que perguntei à tua mãe quando olhei para ti a primeira vez na maternidade “isto é tudo nosso?” e afinal já passou um ano. Estou convencido de que vais achar um exagero o alarido todo à volta de um bolo com uma vela e, pudesses tu falar, dirias, ao ouvir os parabéns, “esta canção é tão má e toda a gente sabe a letra?”. Mas não te apoquentes. Daqui a alguns anos és capaz de lhe reconhecer alguma piada e depois passas a achar que é o teu aniversário é o melhor dia do ano (a seguir ao Natal, ao primeiro dia de férias, ao dia em que muda para a hora de verão, ao dia de São Martinho e ao dia em que recebes o 13º mês).

Sabes, o tio na verdade não sabe se sabe ser tio. Estou farto de ir à FNAC e há montes de livros que ensinam os pais a ser pais e as mães a ser mães. Até já fazem livros (e dias) para os avós. Aparentemente, os tios não representam um investimento lucrativo para as editoras. Por outro lado, livros para as “tias” há muitos (ah, ah, um dia vais perceber a piada). Por isso, vou fazendo o melhor que sei. Mais te informo que, a maior parte do tempo, fico contente só de olhar para ti a existires. Fico ali, entontecido e alienado, como se estivesse a dar um programa de televisão sem que eu nunca mais queira mudar de canal. Tu ris, esbugalhas os olhos, apontas, andas, cais, levantas-te, andas, cais, levantas-te, agitas os braços, fazes ruídos estranhos, bates palminhas, puxas-me a barba e eu fico ali, como se fosse um dos teus peluches preferidos com quem tu brincas e depois largas de imediato. Na verdade, muitas vezes eu nem sei por onde hei de começar a amar-te. Fico desorganizado com tantas coisas boas. Falta-me a habilidade para apreciar uma de cada vez, que hei de fazer? De resto, estou convencido que a tua gargalhada podia muito bem ser uma nova forma de silêncio, mas não sei se o resto do mundo ia achar muita graça.

Amália, o tio nunca foi especialmente talentoso nas armadilhas da saudade. Às vezes, até me chamam de “antissocial”. Os adultos conseguem ser muito cruéis, mas ocasionalmente até acho que têm razão. Há outros que me parece que o problema deles é serem sociais demais, mas isso sou eu que tenho um feitio de cocó. Ao longo deste ano, volta e meia, senti um aperto no peito e até cheguei a ir ao médico. “Isso é saudade.”, disse-me ele a sorrir. “Ai isto é que saudade, sotôr?” perguntei eu com ar de trombose. “Pois atão, homem.”, confirmou ele. De vez em quando vou ser egoísta. Vou ter contigo só por mim, porque assim que te vejo escolho logo a minha melhor gargalhada para fazer a festa contigo. Há de chegar a altura de te ajudar a fazer os trabalhos de casa, ir contigo ao cinema ou rebentar os queixos a um chavaleco qualquer cheio de piercings que diz que quer ser teu namorado.

Bom, vou só ali pentear os pelos dos sovacos e tirar o cotão do umbigo que já estou atrasado para a tua festa. A gente já se vê. Amo-te sempre. Um grande parabém, porque só fazes um ano.

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