A fúria do último escuteiro

escuteira

“A pior coisa que podemos fazer às nossas antipatias de estimação é fingir que elas não existem”, anónimo

Sobre esta premissa que acabei de inventar (que, para os devidos efeitos, vamos todos fazer de conta que já tem centenas de anos e que foi escrito por Confúcio ou um indivíduo qualquer de olhos em bico) vamos falar sobre escuteiros. Ou será escoteiros? Parece que uma letra é a linha que divide os que sabem o Pai Nosso dos que preferem cerveja. Pronto, já me está a dar os nervos. Eu, assim que ouço falar neste clã, começo logo à procura da farmácia de serviço mais próxima. Para começar, eu assumo a minha luta interna em confiar em instituições que convivem tranquilamente com o limbo da dupla grafia. Depois é a palavra “escutas”. Cada vez que ouço falar em Corpo Nacional de Escutas imagino sempre três gordos de calções, meias pelos joelhos, lenço atado ao pescoço e três dedos levantados, dentro de uma carrinha de vidros fumados com phones nos ouvidos a escutar conversas telefónicas aleatórias para depois triangular posições onde vai fazer falta ajudar uma velha a atravessar a rua. É quase um cliché sofrer de afrontamentos provocados por lobitos, exploradores, caminheiros e derivados, bem sei. Tenho, juro que tenho, o respeito pela formação humana que reconheço nos escuteiros, sobretudo no amanhecer da idade, mas acho que eles têm um sério problema de imagem para resolver, para não falar daquele segmento elitista que vai trabalhar com os pobres mas que chega a casa e lava as mãos com pedra-pomes e aguarrás.

Foi assim, meio sem querer, que fiquei a saber que José Armando Gonçalves se tornou no primeiro português a presidir ao Comité Mundial da Organização Mundial do Movimento Escutista. Podem saber mais desta boa-nova aqui. Juro que tenho um polegar aos gritos, com ataques de pânico para fazer um like em júbilo de alegria ao som de trombetas. Afinal, é mais um tuga a presidir a uma cena mundial. O que eu estou a ter dificuldade em encaixar é por que raio é que os escuteiros precisam de um comité. Um comité? Mundial? Será que é preciso um comité para organizar distribuições de sacos à porta dos hipermercados, vendas de calendários em semáforos ou orientações de peregrinos nos “trezes” da Cova da Iria? Atenção, eu não tenho nada contra comités. Até já fui às compras com alguns, trouxemos uns pólos bem jeitosos e a seguir comemos um Mcflurry. Eu nunca fiz parte de nenhum, mas diz quem sabe que é bom para os bicos de papagaio e às vezes gera-se ali um convívio agradável. Mas será que não podia ser uma coisa mais humilde, sei lá, uma associação, uma organização, uma federação, mesmo que tivesse personalidade jurídica?

PS: as moças que fazem parte dos escuteiros costumam ser ligeiramente menos interessantes do que a representada na imagem. Palavra de escuteiro.

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One thought on “A fúria do último escuteiro

  1. Texto digno do típico português que a única coisa que se sente bem a fazer é fazer sentir mal os outros. Talvez um dia aprendas qualquer coisa, nem que para isso tenhas que ir aos escuteiros .

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