SAL refinado

Diapositivo1

A minha primeira preocupação, confesso, foi saber quem eram os argumentistas. Quando descobri que a letra era do João Quadros e do Frederico Pombares achei que a música até podia ser da Dina que eu comprava o disco na mesma. Estive ontem a ver o segundo episódio (que gravei em VHS por cima do Natal dos Hospitais) e confirmei grande parte das ideias com que já tinha ficado: que lufada de ar fresco! “Mas olha que já vi uma série de críticas negativas a isto”, disse-me um. “Estes gajos são quase todos do Sporting”, disse-me o outro. Vamos lá a perceber uma coisa: isto não é Os malucos do riso, nem Os Trapalhões ou O Prédio do Vasco. Isto não é uma macacada feita de sketches cheios de verdete, daqueles que se veem enquanto se cortam as unhas dos pés. Isto é outra conversa: fazer um programa de comédia sem ter o formato de piadas de três ou quatro minutos é mesmo arriscado em Portugal. Dá-me sempre um tremelique no olho esquerdo cada vez que alguém acha que a comédia se mede pela quantidade de gargalhadas. É o mesmo que achar que a qualidade musical se mede pela quantidade de seguidores no facebook – One Direction, 33 840 932 – ou visualizações no youtube – Psy, 2 064 849 172.

Atenção, eu não creio que Sal seja a última Coca-Cola do deserto, mas O Tal Canal já foi há muitos anos. Isto não é o Último a sair ou o Odisseia (provavelmente o programa mais brilhante da televisão portuguesa em muitos anos) até porque o tiro de partida de “um programa sobre a inexistência de um filme” não é uma ideia assim tão original. Sal são quatro tipos consensualmente engraçados e que disfrutam de um guião brilhante. São inteligentes o suficiente para escolherem uma boa banda sonora, pintarem um postal de Cabo Verde muito mais eficaz do que as telenovelas da RTP África, com um balúrdio de amigos (que lhes devem dizer que sim na hora e que agradecem) que inclui os manos Guedes, o Camané, a Diana Chaves, Vítor Norte, o Castelo Branco (a fazer de homem!), para citar alguns.

O João Manzarra não é um grande ator, mas, em boa verdade, nenhum deles verdadeiramente é ator: satisfazem um vazio, suprimem a necessidade e sofrem a consequência de serem tipos com bastante piada (até porque nunca me lembro de rir à conta da Eunice Muñoz ou do Ruy de Carvalho). Seja como for, os fab four resultam e de que maneira. César Mourão é brilhante a fazer de rei da festa e estrela de rock ‘n’ roll, o Unas faz o papel que resulta sempre – fazer de ele próprio – com a expressão facial sortida que tem e o Salvador Martinha…bom, na minha opinião, o Martinha é dos tipos mais engraçados do nosso país. Tem um timbre prenho de pequenas singularidades, um sentido de timing e respiração invejável. Depois tem aquele nariz de trombose de quem nasceu na Terra Média (não deve ter sido um bebé bonito) que me parte todo.

Eu sei qual é o problema. O problema é que entre esta geração (estes, os Gatos, o Bruno Nogueira, o Nuno Lopes, a Rueff, para citar alguns) e a geração dos super-bacocos Camilo de Oliveira, Nicolau Breyner, Camacho Costa, Marina Mota, Luís Aleluia, Fernando Mendes, Guilherme Leite, entre outras pérolas, pouco tivemos para além do José Pedro Gomes e do António Feio (que saudades!). Não tivemos muito tempo para nos habituarmos a “cenas fora da caixa”. Fazer humor do bom, é arriscado, não dá audiências, não dá grandes patrocínios. A estrada para fazer rir a geração iPhone (não confundir com geração like) é cheia de curvas apertadas e remendos no alcatrão. Com o acesso às fontes de energia renováveis e inesgotáveis a que temos direito desde que há tv por cabo e youtube, as anedotas do alentejano e do preto já não nos fazem rir como dantes. Sal é uma série refinada, mas sagaz: não se alimenta de piadas excessivamente eruditas que só meia dúzia de iluminados é que conseguem atingir. Infelizmente, o mais provável é, daqui a duas ou três semanas eu estar a dizer “eu ainda sou do tempo em que o Sal dava aos sábados à noite a seguir ao telejornal”.

 

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