O dia dos meujanos

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Ontem fiz anos. Foi meio sem querer que eu até tinha tirado o dia para encerar o chão e lavar as persianas. A princípio, pareceu-me uma ideia meio idiota, mas tu estás parvo ou quê, ainda a semana passada a semana passada fizeste anos e há dois meses tinhas 18, mas como a gente faz tanta coisa pensei “que se lixe”. E foi assim, lá fiz anos. Acordei cedo e assim que peguei no telemóvel pareceu-me logo mais pesado. Não estava anafado de mensagens como noutros anos, mas já lá tinha uns quantos “contes muitos” e outros tantos “votos de um dia muito feliz e que se repita por muitos anos”. Eram mensagens enviadas sobretudo por aquelas pessoas cujo alarme da próstata já dispara três vezes por noite.

O meu coelho foi o primeiro a dar-me os parabéns ao vivo. Deu-me um abraço forte, duas palmadas nas costas e ainda me deu 20 euros para eu não gastar tudo em gomas e raspadinhas. Depois dei-lhe de comer e ele voltou a fazer de conta que eu não existo, como todos os dias – o meu coelho tem um nível muito específico de sensibilidade, talvez por, na verdade, ser uma coelha. Durante o dia, fui recebendo telefonemas, sms e muitas coisas fofas no facebook, mesmo de pessoas que eu nem sabia que existiam. Eu ainda sou do tempo em que fazer amigos era uma coisa complicada. Só depois de quatro jogos da bola, trinta cromos e duas voltas de bicicleta é que evocávamos alguém de amigo. Hoje até sei quantos tenho: 589. Claramente, metade deles só estão interessados no meu corpo ou no meu dinheiro porque só 326 é que me deram os parabéns. Até achei estranho alguns andarem a tirar fotos com um cartão cor-de-rosa à frente da máquina e escolherem isso para foto de perfil, mas eu tenho para lá amigos que nem conheço bem.

À noite, jantar com a família. A minha mãe deu-me umas meias e eu “ó mãe, ainda não é Natal” e ela “ó porra, que me enganei no embrulho” e foi buscar o frasco de champô que me dá todos os anos. Perguntei-lhe, como todos os anos, se eu já podia deixar de usar as botas ortopédicas, que já estou a ficar crescido, que até já escolho a minha roupa sozinho, mas ela deu-me duas galhetas e perguntou-me se eu queria ficar igual ao meu tio Fernando (o meu tio Fernando tinha os pés tão chatos que podiam ser usados como tábua de engomar). O meu pai deu-me um isqueiro em prata com Finório escrito em relevo com um cartão muito bonito a dizer “vê lá se deixas de fumar”. O meu irmão ofereceu-me um pente multiusos que comprou nos chineses. Multiusos porque serve para pentear o cabelo, os pelos das costas e os do rabo. Disse-me que para o ano me dava qualquer coisa para os pelos púbicos, porque não tinha conseguido tirar mais dinheiro do mealheiro da minha sobrinha. O meu pároco ainda me ligou para eu lá passar e bebermos um cálice, mas eu disse-lhe que não tinha saudades dele, que estava tudo acabado entre nós e que era melhor esquecer aquela noite na sacristia em que abusámos dos cogumelos. Os meus amigos fizeram uma vaquinha e ofereceram-me dois bilhetes para a Torre do Tombo para quando finalmente ganhar coragem para convidar a filha da porteira. Tenho dois amigos que já lá foram e dizem que se come muito bem (foram à filha da porteira, não a Torre do Tombo).

Cheguei ao termo do meu dia cansado, como se tivesse andado com o João Gobern às cavalitas desde manhã. Arrastava o esqueleto com a sensação de estar a perder peças pelo caminho. Isto de fazer anos cansa muito. Agora, que já é amanhã, posso voltar a ter um dia mais contornado a preguiça. Agora, que já é amanhã, já posso voltar a ser o cidadão simplesmente aceitável do costume.

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