Educação para a vulgaridade

portugal aquário

105000 pessoas. O último recenseamento na Casa dos Segredos aponta para este número. 105000 almas disponíveis para saltarem para dentro do tanque do voyeurismo com uma pirueta encarpada e um pomposo splash.  É este o número que ilustra a quantidade de cidadãos que aceitam o jogo de verdade e consequência dentro de um aquário. Pouco importa que a verdade se torne em água choca e que a consequência seja chuparem-lhes todos os nojos para que os seus nojos passem a ser de todos. Até porque, só se cria a oferta porque a procura assim o exige. Já se sente no ar o desejo insustentável que nos empurra para o algarismo 4 do comando. Já se lê nos rostos o apetite sôfrego de descobrir se há gajas boas, moços com dentes bonitos ou personagens fofas porque dão mais pontapés na gramática que o Jesus.

As saudades que eu tenho de quando havia mais vulgares… Lembram-se daquele engenheiro agrónomo que papava os concursos todos e que, inevitavelmente, os acabava por ganhar? Esse mesmo em que estão a pensar. Não era propriamente um filisteu que desprezava o conhecimento. Aquilo para ganhar o Casa Cheia era preciso saber umas coisas e ter sangue frio. Hoje, não. Hoje, há 105.000 pessoas que se acreditam invulgares, fascinantes, de caráter vincado, cativantes, de feitio muito próprio, que dizem tudo pela frente e nada por trás. Chiça penico, somos muita fortes no quadro da singularidade.

Arrisco a dizer: é possível que a maior das virtudes que o português possa ter hoje é ser vulgar. Talvez ser vulgar seja fugir da notoriedade fabricada com biquínis reduzidos, implantes de silicone, músculos inchados e tesos, tatuagens tribais e líbido desgovernada. Talvez ser vulgar seja crer que o país em que vivo não tem, repito, não tem de ser o das maravilhas a qualquer custo. Talvez ser vulgar seja acreditar que a minha galinha é saudavelmente gorda como a da vizinha, mesmo que isso signifique mentir para mim próprio. Talvez ser vulgar seja saber que a fama é uma casa feita de palha que até um lobo mau constipado e com asma deita facilmente abaixo. Talvez ser vulgar seja permitir que os meus dias sejam um tédio, um percurso de irremediável rotina, mas aceitar isso como quem compreende que a felicidade são momentos e que o nirvana não é um estado latente que mereça crédito.

Para os heróis do aquário, no regresso ao mundo dos vulgares, está já prometida a glória quimérica que lhes será servida numa bandeja de prata; uma existência que deixará de ser decorada a sombras para ser toda ela brilhos, batidas de clubes noturnos e capas de revistas de salas de espera a troco de alvíssaras; a explosão em câmara lenta de sorrisos encomendados que promove o complexo de bezerro dourado; a ocupação branda de ser o messias a quem os outros prestam genuflexões e vénias profundas.

“O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho”, dizia Ramalho Ortigão em As Farpas. Catano, até já tenho nome para uma nova disciplina: educação para a vulgaridade.

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