A culpa é do horário de inverno

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São 20h00 e já é noite praí há 7 horas. Sinto-me todo misturado e desconsolado. É preciso preparar as pessoas para estas deslocações horárias com antecedência, não é chegar ao dia e dizer “arrebenta a bolha que hoje muda a hora”. É que assim põem-se a jeito: as pessoas ficam abatidas, descompostas e baralhadas. Junte-se a isto os melhores dias de praia de 2014 a fazer pendant com anúncios e enfeites de Natal e temos granadas de jet lag a estourar-nos nas mãos.

Estas mudanças mexem muito mais com as pessoas do que se julga. Esta semana eu vi uma beata a chegar atrasada ao terço, crianças a pedir meias ao Pai Natal, uma ninfo a recusar sexo oral, um sado-maso a dizer “mais devagar que assim aleija”, uma velha a preencher a ficha de militante do BE, anúncios do Ferrero Rocher sem o Ambrósio, um tipo a comprar uma máscara de cowboy para o Halloween, crianças a ir para a escola a acreditarem que iam ter as aulas todas e um alcoólico a recusar um gin tónico por ser muito cliché.

Mas há situações ainda mais perigosas. Eu vi com estes dois que a terra há de comer, ninguém me contou. Eu vi um primeiro-ministro disposto a desrespeitar um tribunal constitucional pela enésima vez, aviões russos a fazer piões ao largo do Atlântico, um Crato a autoelogiar a sua competência e uma sabotagem informática a justificar o crash do Citius. Isto são situações que raspam as perturbações do oculto. É para verem no que dá. E nem me façam falar no tipo que ganhou 190 milhões de euros e que ainda não reclamou o prémio.

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Telemóvel batizado e crismado possuído pelo diabo

devil phone

– Eu não acredito que tu usas o teu telemóvel para essas coisas.
– Não sou eu! A culpa não é minha. É o diabo! Estou-te a dizer!

É verdade! Não sou eu: é o Belzebu que habita no meu smartphone que me leva a fazer estas coisas. É o chifrudo que faz do meu telemóvel a moita atrás da qual me escondo quando estou sentado no café e vejo aquele colega do trabalho a quem não faço questão nenhuma de emprestar algumas palavras. Na esperança de que não tenha dado conta que o topei logo ao fundo da rua, mergulho o olhar no display oferecendo-lhe carícias com o indicador. É a camuflagem urbana perfeita. Não terá coragem de me dizer de me vir falar, é evidente que estou a tratar de coisas demasiado importantes. Na verdade, estou a fazer um favor a ambos. Ele também não tem qualquer interesse em apresentar a mulher vestida daquela maneira e com a raiz do cabelo toda arruinada porque só está bem é a ver a Casa dos Segredos em vez de gastar uma tarde no cabeleireiro. Sim, estou a fazer uma boa ação.

Não sou eu: é Mefistófeles que reencarnou no meu smartphone. Chega a colega gostosona do escritório, passa e atira um “tudo bem?”. Quer lá ela saber se está tudo bem. Chega aqui. Já te mostrei as últimas fotos da minha sobrinha? E eis-me a fazer movimentos suaves com a mão, da direita para a esquerda, folheando os tesouros da minha sobrinha, com o ar mais plácido do mundo, como se fossem as páginas da primeira edição da Divina Comédia. E olha esta, e olha para esta carinha, e tem 14 meses mas já diz “tio Finório”, e ela adora o tio porque eu sou super fixe, super fofo e super super. E ali estou eu a ser horrível, a merecer a morte de cruz por estar a usar todas as fofuras da minha sobrinha para plantar a ideia de que sou um tipo à maneira. Vês como até nem sou um arrogante? Eu sou um fixe, pá. Sou macio e meloso. Derreto-me com aquelas bochechas portanto só posso ser um bom homem. Anda, vamos praticar o coito uma noite destas, na tua casa ou na minha, tanto faz.

Não sou eu: é Satanás que me empurra para o meu telemóvel quando é urgente um desbloqueador de conversas na pausa do café. Ali estamos, cinco ou seis macacos com pouco ou nada em comum, cigarro na mão direita, copo de plástico na outra e um silêncio de igreja. Despacha-te. Engole o café de uma vez nem que frites a língua. Precisas dessa mão para mexer no telegaitas. Se não te despachas ainda alguém vai dizer que a chuva vem aí outra vez e depois é que temos a burra nas couves. Isso, bebe tudo. Porra que está quente. Agarra no telemóvel, procura as gordas dos jornais. Anda depressa, pá. Não, isso não, procura uma cena mais barrasca. Uff, estou safo. Lança a bomba bem alto.

– Então o Dalai Lama é o novo treinador do Estrela da Amadora?

E o tenente dos exércitos do trevas ri-se entre as chamas. Aquilo é vê-los a desfazerem-se do ar de frete em menos de um fósforo. Tchi, esse gajo não vale nada, não percebe nada de bola. Vem para aqui mandar postas de pescada e que conhece todos os D’Artagnans que andam por esses clubes escondidos e que tem cunha com o Buda ou o Maomé ou que raio é.

 

Gonna miss you, madafaka

hank moody

Adiei enquanto consegui, mas acabei por ceder. Andava há semanas a evitar ver os últimos episódios da derradeira temporada do Californication. Não estava preparado para me despedir do Hank Moody. Se tivesse de olhar para toda a série com um olhar crítico e isento, talvez fosse obrigado a reconhecer que, porventura, já deveriam ter acabado com isto há umas temporadas. Ditosamente, considero-me dispensado desse tipo de julgamentos, cedendo essa responsabilidade aos militantes com quotas em dia do IMDB.

David Duchovny nem teve de se esforçar muito para se tonar em Hank Moody. Na verdade tenho muita dificuldade em dissociar um do outro: Hank Moody não podia ser interpretado por mais ninguém. Às vezes troco-me todo e trato-o por David Moody ou Hank Duchovny. Na delgadíssima linha que separa os dois, temos de um lado um David formado e mestrado em literatura inglesa, recém-divorciado de Téa Leoni e reabilitado da “perturbação” do vício sexual. Do outro lado, temos um Hank que é uma catástrofe enquanto pessoa. À parte da curva melódica mais cool do termo motafaka, é uma fraude enquanto pai, um embuste enquanto companheiro, um adolescente no que toca a relações humanas, um escritor quase estéril e uma verdadeira sanguessuga de vaginas dono. Enfim, não vale a pena estar com pinças: é um sedutor congénito. Hank Moody é o rei do sloppy charm. Emite um pulsar magnético e irresistível que parece atrair todos os seres humanos com duplo cromossoma x. Raios! Como é que ele faz aquilo? É ficção, estúpido. Não é nada! Hank Moody é real! Hank Moody existe! Hank Moody habita em nossos corações! Hank Moody, the coolest man on tv ever, madafaka!

Um aventura no supermercado

1971742A primeira asneira foi ter escolhido um domingo de manhã para ir às compras. Ninguém me tira da cabeça que já há por aí empresas a organizar excursões aos supermercados. Enfiam 50 velhos dentro de um autocarro, prometem-lhes como destino o santuário de São Bento da Porta Aberta e afinal a viagem é só até ao hipermercado local. Claro, já que ali estão, aproveitam para ir às compras. No final, ainda levam com a palestra dos colchões e dos fornos elétricos que se lixam. Parece-me urgente promover uma cultura de ir às compras por turnos.

A segunda asneira foi acreditar que, enquanto ia ao corredor dos iogurtes e das manteigas, podia deixar o carrinho sozinho. É o que toda a gente faz e nem devia contar como asneira, mas quando lá cheguei já não havia carrinho. Os carrinhos são todos iguais e alguém podia ter confundido o cabaz de compras, mas não estava lá nenhum no lugar do meu. Roubaram-me o carrinho dentro do supermercado! Mas quem é que faz isto? Eu ainda não tinha pago nada, mas já tinha a lista de compras toda riscada e cheio de pressa.

A terceira asneira foi ter foi ter dado conhecimento ao segurança que ali passava.

– Olhe, roubaram-me o carrinho.
– Mas era carrinho ou era cestinho? Diga a verdade.
– Era cestinho.
– Mas roubaram-lhe o cestinho onde?
– Aqui.
– Cá dentro? Antes de pagar?
– Isso.
– E então? É só encher o cestinho outra vez.
– Não estava nada interessado nisso. Podemos deixar de usar a palava “cestinho”?
– Não. Cestinho é cestinho, carrinho é carrinho. O que é tinha dentro do cestinho?
– Sei lá, coisas. Massa, pasta de dentes, pão, champô, cerveja, preservativos…
– De que tipo eram os preservativos?
– Sei lá. Eram preservativos.
– Mas esse dado é importante.
– Importante porquê?
– Aqui quem faz as perguntas sou eu.
– Eram extralongos.
– Quero a verdade!
– Pronto, eram normais, dos mais baratos que lá havia.
– Claro. Os preservativos eram para o amor?
– Pois, para que que havia de ser?
– Já lhe disse que quem faz as perguntas aqui sou eu. E o amor que pratica não merece preservativos de melhor qualidade?

Eu já estava prestes a tirar uma foto ao segurança para arquivar na minha caderneta dos “maiores cromos que já conheci”, quando apareceu outro segurança.

– Boa tarde. Passa-se aqui alguma coisa?
– Estava aqui a queixar-me ao seu colega que me roubaram o cestinho de compras.
Ele puxou-me para o lado e disse-me entre dentes que aquele seu colega era meio tantan e que às vezes podia ter atitudes meio bizarras.

– Diga-me lá: o que é que tinha o cestinho?
– Coisas normais. Massa, pasta de dentes, pão, champô, cerveja…
– E que mais?
– Sei lá. Preservativos…

Fez uma pausa, assentiu com a cabeça, cofiou a barba e perguntou:

– De que tipo eram os preservativos?
– Extralongos…
– Pois. Extralongos. Claro, claro. Então também tinha fio dentário no carrinho, certo?
– Não. Porquê?
– Para dar um nó no preservativo. Para não ficar tão laço.
– Pronto, eu confesso. Não eram extralongos. Eram dos mais baratos.
– Dos pequeninos?
– Sim…dos pequeninos…
– Bem me parecia. Deixe ver o que se arranja.

Através do walkie-talkie comunicou qualquer coisa que não percebi, obtendo como resposta um ok com acústica de Rádio Táxis. Alguns minutos depois aparece outro segurança acompanhado de um anão que puxava o meu cesto. O segurança foi o primeiro a falar.

– Encontrei-o já na fila para pagar.

O anão entregou-me o cesto oferecendo-me as suas desculpas.

– Desculpe lá, amigo. Vi os preservativos e pensei que era o meu cestinho.

Tantas virtudes não compensam certos defeitos

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Calma, sim, deixa-me falar, não estejas sempre a interromper. Claro que és bonita. Tu tens um figurão. Sobretudo vista de trás…ou de longe. Não percebes porquê? Como é que eu te vou explicar?…Eu sei, não precisas de me dizer isso a mim. Nota-se que andas a par dos penteados da moda e que convives saudavelmente com as mudanças de look sem nunca teres cometido nenhum excesso que te pusesse a jeito das tribulações do ridículo. O quê? Oh pá, essas tuas amigas…Claro que tens bom gosto. Compras roupa do tamanho certo, que te assenta bem e te promove as curvas. Tens uma relação impecável com as cores. Tens episódios vagais de monocromatismo, mas…sim, era o que eu ia dizer, é só para variar. Mas quem é que te está a dizer que pareces uma badalhoca? Ouviste-me a dizer isso?

É mentira. Digo-te eu que é mentira. Quem é te disse que tinhas uma voz irritante? O quê? Parecida com a da Teresa Guilherme? Foi a Rita que te disse isso? Essa estúpida. Não era essa que também achava que a Jessica Athayde estava gorda? Que quengas que as tuas amigas são…Falo como que eu quiser e bem me apetecer. Ontem disseram-te…Que parecia o quê? Uma bilha de gás? E tu acreditaste? Olha, tomara muitas com metade da tua idade terem o teu rabo.

Os teus joelhos? Que é que têm de mal os teus joelhos? Olha que a Soraia é que tem uma moral para falar sobre isso, esse destroço humano todo enfrascado de comprimidos porque o marido fugiu com uma kosovar. Tu tens umas pernas que davam para apresentar o Euromilhões…Sim, e uns pés bem-feitos, com uma unha inteira em cada dedo e lavas atrás das orelhas e tiras o cotão do umbigo nem que seja com um alicate de pontas…Era uma piada, não é preciso falares assim comigo. Estás muito sensível hoje. Continua a dar-te com essas pacóvias que fazes bem.

O quê? As tuas glândulas suduríparas são amorosas, não trabalham nada em excesso! Elas é que são umas gordurosas de merda. E ainda me lembrei doutra: tu bebes mais cerveja que o Homer Simpson e manténs uma barriguinha de Beyonce…Porra, estava a ver que não te conseguia pôr a rir.

Mas queres mesmo que eu te diga? Cala-te, não me interrompas outra vez. Como é que te vou dizer isto? Repara, fazes depilação a laser, tens uma ótima linha de biquíni, rapas as axilas em condições, fizeste as pazes com a tua fase Frida Kahlo e já tens duas sobrancelhas. Tens quase tudo muito resolvido com as pilosidades, mas se queres mesmo arranjar um homem, porra, tens de fazer o buço, catano!

Problemas de matemática: dinheiro de plástico

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Os seguintes problemas poderão ser encontrados no manual do 2.º ano de matemática do próximo ano letivo.

  1. O Joãozinho quer comprar um pacote de gomas que custa 17 sacos de plástico, mas só tem 9 sacos. Quantos sacos lhe faltam para poder comprar as gomas?

R: _______________________________________________________________________________

  1. No seu aniversário, o Luís Miguel recebeu 50 sacos de plástico da sua avó e o dobro dessa quantia da sua mãe. Quantos sacos de plástico recebeu?

R: _______________________________________________________________________________

  1. A Luísa comprou o último disco da Violetta que custa 1320 sacos de plástico. Pagou com 1500 sacos de plástico. Quantos sacos recebeu de troco?

R: _______________________________________________________________________________

Nunca percebi a capa deste disco

jessica

Adoro vasculhar a vasta coleção de discos de vinil que o meu pai acumulou ao longo dos anos. Gosto de jogar ao mal-me-quer-bem-me-quer com as capas grandes dos álbuns cheios de cabelos brancos. Posso aproveitar todos os pormenores que a geração thumbnail nunca vai aprender a saborear. Adoro ver a capa de O Calhambeque, do Roberto Carlos. É terapêutico estudar o sorriso da empregada de mesa do Breakfast in America, dos Supertramp. Perco horas com as capas dos Beatles, sobretudo com a do Sargent Pepper. Houve uma altura em que sabia de cor o nome de todas as personagens. Nunca percebi a capa do Delicate Sound of Thunder, dos Pink Floyd, mas continuo a esbanjar muito tempo a olhar para ela. Até hoje não percebi o que queriam eles transmitir com um homem cheio de lâmpadas penduradas a mirar um sujeito cheio de pássaros a voar em seu redor.

Outra capa que nunca percebi é a do single Fat Bottomed Girls, dos Queen. Nunca entendi por que raio é que escolheram uma gaja tão apetitosa para a capa de um disco com uma canção sobre “moças de cu grande”. Ainda no outro dia vi uma mulher que tinha o perímetro equivalente à rotunda do Marquês. Porque é que eles não escolheram uma assim para a capa do disco? Manias de artista-místico-cena-intelectual-éramos-tão-doidos-nos-seventies. Não me interpretem mal: eu adoro a capa do disco! Tudo bem, parece que foi uma coisa meio feita à pressa. Escanhoaram o fundo de uma fotografia de uma mostra de biquínis numa passerelle e colaram-na com cuspo. Naquele tempo, sem Photoshop,a malta fazia o que podia. Ainda bem. Prefiro de longe a moça de coxas bojudas de alta performance que lá espetaram. Podiam muito bem ter optado, sei lá, por uma gaja de ancas generosas a andar de bicicleta em biquíni com o mealheiro à vista. Graças a Deus que não foram por aí.