Em Portugal são todos doutores e mixters

mixter

Nunca percebi a pancada que os jogadores portugueses têm de dizer Mister quando se referem a um treinador. Na verdade, o que eles dizem nem é Mister: é Mixter. Durante muito tempo, achei que era uma espécie de lambe-botismo refinado, mas depois de ter visto jogadores a dizerem que “o Mixter é um canastrão” abandonei essa ideia. O uso deste termo torna-se realmente cómico quando o emissor é um jogador português que se refere a um treinador português, ou, mais trágico ainda, quando os garotos de 10 anos das escolinhas de futebol esperam “corresponder às expetativas do Mixter”.

Embora eu perceba tanto de futebol como do processo de fermentação do vinagre, ao longo dos anos fui arquitetando uma teoria: o futebol português sofre de falta de autoestima. Eu sempre vi esta coisa do Mixter para aqui, Mixter para ali, como uma manha para tornar o futebol mais erudito. Como neste país toda a gente é doutor, um treinador tem de ser tratado como Mixter, caso contrário é visto como um barrasco que só tem a 4ª classe.

Estou convencido de que o nosso país já não é propriamente o cu de Judas do planeta do futebol, mas continuamos a fazer o que podemos para andar de cu tremido. Até no futebol continuamos a apreciar os Messias e os Sebastiões. Quantos Eusébios, Figos, Cristianos, Mourinhos e Vítores Pereiras serão necessários para nos dar um boost de amor-próprio? (esta do Vítor Pereira ainda é o álcool do casamento de ontem a falar).

Não satisfeito, até porque as minhas teorias no âmbito do futebol acabam quase sempre todas na fogueira, andei a recolher informações junto de quem tem uma visão do futebol livre de quaisquer dioptrias e que se preocupa realmente com as questões pertinentes do pensamento quotidiano. Vim de lá com duas explicações:

Primeira: é assim porque sempre foi assim. (esta não me deixou saciado)

Segunda: nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, Portugal assistiu a uma inundação de treinadores estrangeiros nos principais clubes. Os jogadores ainda não eram figuras de passerelle ou estrelas de rock ‘n’ roll e havia uma relação de enorme reverência para com a figura do treinador. Logo, “treinador” não significava nada, mas “mixter” era como falar com o Papa.

Pronto, está bem. É uma boa explicação, mas não estou preparado para abandonar a minha teoria. Felizmente, as minhas teorias não chegam a lado nenhum, não formam opiniões e não interessam a ninguém. Valha-nos isso.

De qualquer forma, tentei pôr esta macacada em prática num contexto que me fosse conveniente. Talvez se eu me dirigisse ao meu chefe noutros termos, ele me desse algum crédito. Não correu bem.

Boss, parece-lhe uma boa altura para falarmos sobre o meu aumento?

Worthless piece of shit, vai mais é trabalhar!

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