Um aventura no supermercado

1971742A primeira asneira foi ter escolhido um domingo de manhã para ir às compras. Ninguém me tira da cabeça que já há por aí empresas a organizar excursões aos supermercados. Enfiam 50 velhos dentro de um autocarro, prometem-lhes como destino o santuário de São Bento da Porta Aberta e afinal a viagem é só até ao hipermercado local. Claro, já que ali estão, aproveitam para ir às compras. No final, ainda levam com a palestra dos colchões e dos fornos elétricos que se lixam. Parece-me urgente promover uma cultura de ir às compras por turnos.

A segunda asneira foi acreditar que, enquanto ia ao corredor dos iogurtes e das manteigas, podia deixar o carrinho sozinho. É o que toda a gente faz e nem devia contar como asneira, mas quando lá cheguei já não havia carrinho. Os carrinhos são todos iguais e alguém podia ter confundido o cabaz de compras, mas não estava lá nenhum no lugar do meu. Roubaram-me o carrinho dentro do supermercado! Mas quem é que faz isto? Eu ainda não tinha pago nada, mas já tinha a lista de compras toda riscada e cheio de pressa.

A terceira asneira foi ter foi ter dado conhecimento ao segurança que ali passava.

– Olhe, roubaram-me o carrinho.
– Mas era carrinho ou era cestinho? Diga a verdade.
– Era cestinho.
– Mas roubaram-lhe o cestinho onde?
– Aqui.
– Cá dentro? Antes de pagar?
– Isso.
– E então? É só encher o cestinho outra vez.
– Não estava nada interessado nisso. Podemos deixar de usar a palava “cestinho”?
– Não. Cestinho é cestinho, carrinho é carrinho. O que é tinha dentro do cestinho?
– Sei lá, coisas. Massa, pasta de dentes, pão, champô, cerveja, preservativos…
– De que tipo eram os preservativos?
– Sei lá. Eram preservativos.
– Mas esse dado é importante.
– Importante porquê?
– Aqui quem faz as perguntas sou eu.
– Eram extralongos.
– Quero a verdade!
– Pronto, eram normais, dos mais baratos que lá havia.
– Claro. Os preservativos eram para o amor?
– Pois, para que que havia de ser?
– Já lhe disse que quem faz as perguntas aqui sou eu. E o amor que pratica não merece preservativos de melhor qualidade?

Eu já estava prestes a tirar uma foto ao segurança para arquivar na minha caderneta dos “maiores cromos que já conheci”, quando apareceu outro segurança.

– Boa tarde. Passa-se aqui alguma coisa?
– Estava aqui a queixar-me ao seu colega que me roubaram o cestinho de compras.
Ele puxou-me para o lado e disse-me entre dentes que aquele seu colega era meio tantan e que às vezes podia ter atitudes meio bizarras.

– Diga-me lá: o que é que tinha o cestinho?
– Coisas normais. Massa, pasta de dentes, pão, champô, cerveja…
– E que mais?
– Sei lá. Preservativos…

Fez uma pausa, assentiu com a cabeça, cofiou a barba e perguntou:

– De que tipo eram os preservativos?
– Extralongos…
– Pois. Extralongos. Claro, claro. Então também tinha fio dentário no carrinho, certo?
– Não. Porquê?
– Para dar um nó no preservativo. Para não ficar tão laço.
– Pronto, eu confesso. Não eram extralongos. Eram dos mais baratos.
– Dos pequeninos?
– Sim…dos pequeninos…
– Bem me parecia. Deixe ver o que se arranja.

Através do walkie-talkie comunicou qualquer coisa que não percebi, obtendo como resposta um ok com acústica de Rádio Táxis. Alguns minutos depois aparece outro segurança acompanhado de um anão que puxava o meu cesto. O segurança foi o primeiro a falar.

– Encontrei-o já na fila para pagar.

O anão entregou-me o cesto oferecendo-me as suas desculpas.

– Desculpe lá, amigo. Vi os preservativos e pensei que era o meu cestinho.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s