Telemóvel batizado e crismado possuído pelo diabo

devil phone

– Eu não acredito que tu usas o teu telemóvel para essas coisas.
– Não sou eu! A culpa não é minha. É o diabo! Estou-te a dizer!

É verdade! Não sou eu: é o Belzebu que habita no meu smartphone que me leva a fazer estas coisas. É o chifrudo que faz do meu telemóvel a moita atrás da qual me escondo quando estou sentado no café e vejo aquele colega do trabalho a quem não faço questão nenhuma de emprestar algumas palavras. Na esperança de que não tenha dado conta que o topei logo ao fundo da rua, mergulho o olhar no display oferecendo-lhe carícias com o indicador. É a camuflagem urbana perfeita. Não terá coragem de me dizer de me vir falar, é evidente que estou a tratar de coisas demasiado importantes. Na verdade, estou a fazer um favor a ambos. Ele também não tem qualquer interesse em apresentar a mulher vestida daquela maneira e com a raiz do cabelo toda arruinada porque só está bem é a ver a Casa dos Segredos em vez de gastar uma tarde no cabeleireiro. Sim, estou a fazer uma boa ação.

Não sou eu: é Mefistófeles que reencarnou no meu smartphone. Chega a colega gostosona do escritório, passa e atira um “tudo bem?”. Quer lá ela saber se está tudo bem. Chega aqui. Já te mostrei as últimas fotos da minha sobrinha? E eis-me a fazer movimentos suaves com a mão, da direita para a esquerda, folheando os tesouros da minha sobrinha, com o ar mais plácido do mundo, como se fossem as páginas da primeira edição da Divina Comédia. E olha esta, e olha para esta carinha, e tem 14 meses mas já diz “tio Finório”, e ela adora o tio porque eu sou super fixe, super fofo e super super. E ali estou eu a ser horrível, a merecer a morte de cruz por estar a usar todas as fofuras da minha sobrinha para plantar a ideia de que sou um tipo à maneira. Vês como até nem sou um arrogante? Eu sou um fixe, pá. Sou macio e meloso. Derreto-me com aquelas bochechas portanto só posso ser um bom homem. Anda, vamos praticar o coito uma noite destas, na tua casa ou na minha, tanto faz.

Não sou eu: é Satanás que me empurra para o meu telemóvel quando é urgente um desbloqueador de conversas na pausa do café. Ali estamos, cinco ou seis macacos com pouco ou nada em comum, cigarro na mão direita, copo de plástico na outra e um silêncio de igreja. Despacha-te. Engole o café de uma vez nem que frites a língua. Precisas dessa mão para mexer no telegaitas. Se não te despachas ainda alguém vai dizer que a chuva vem aí outra vez e depois é que temos a burra nas couves. Isso, bebe tudo. Porra que está quente. Agarra no telemóvel, procura as gordas dos jornais. Anda depressa, pá. Não, isso não, procura uma cena mais barrasca. Uff, estou safo. Lança a bomba bem alto.

– Então o Dalai Lama é o novo treinador do Estrela da Amadora?

E o tenente dos exércitos do trevas ri-se entre as chamas. Aquilo é vê-los a desfazerem-se do ar de frete em menos de um fósforo. Tchi, esse gajo não vale nada, não percebe nada de bola. Vem para aqui mandar postas de pescada e que conhece todos os D’Artagnans que andam por esses clubes escondidos e que tem cunha com o Buda ou o Maomé ou que raio é.

 

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