O que me custa dizer isto, catano

endless river

“Custa-me tanto dizer isto, mas o novo álbum dos Floyd é completamente ridículo”. Foi assim, por sms, que dei razão ao meu irmão. Ele respondeu com a palavra preferida dos adultos quando não têm nada para dizer: “pois”. (neste caso, o equivalente a qualquer coisa como “told ya”)

Os temas do novo The Endless River os temas são desinteressantes, enfadonhos e sem nenhuma sequência lógica apesar da ligação quase ininterrupta entre faixas. Só Deus sabe o que me custa dizer isto, mas é um álbum completamente desnecessário. E nem me venham com a história do “último adeus” ou da “espécie de tributo a Richard Wright”.

Mas, claro, ainda assim, comprei-o. Comprei-o e voltava a comprá-lo. Comprei-o porque queria ter outra vez 16 anos e estar fechado no quarto a tocar por cima dos discos deles, porque tenho umas saudades danadas do Richard Wright e porque eu não seria mesma pessoa se não tivesse sido gozado tantas vezes por estar a ouvir o The Wall em vez de ser um adolescente fustigado pelo grunge. E, se não fosse por outro motivo, comprá-lo-ia sempre por respeito. Pergunto-me que considerações terá a geração mp3 sobre a ideia de “comprar um disco” e de o fazer “por respeito”. Como alguém disse talvez este disco sirva sobretudo como som ambiente para conversas de fãs sobre o assunto”.

E Deus criou as botas e viu que tudo era bom

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Leitura do livro dos Génesis

Naqueles dias, Adão chamava pelo Senhor.
– Senhor, senhor! Estás por aí?
– Que é que se passa, Adão?
– Precisava de ajuda, Senhor.
– Só se for coisa rápida. Estou demasiado ocupado a preparar o dilúvio.
– Deixa estar, então. Se tens muito que fazer…
– Eu estou sempre ocupado. O universo está em constante crescimento. Vá, diz lá o que é queres.
– Tenho vergonha…
– Diz lá, estupor. Já te disse que estou com montes de coisas para tratar.
– Senhor, não gosto do inverno.
– Não gostas do inverno?
– Não.
– Então porquê?
– Porque é frio.
– Porque é frio? Só por isso?
– Oh, tu és Deus. Nem dás conta. Falta-te sensibilidade para essas coisas.
– Estás a acusar o teu Criador de falta de sensibilidade? Desejas provocar a ira do teu Deus?
– Não, Senhor, por quem sois. Não gosto do inverno, pronto. É frio e às vezes chove comò catano.
– E que queres tu que eu faça?
– Não sei, faz qualquer coisa. Chiça penico, tu és omnipotente! Tu criaste o universo em seis dias, catano!
– Foi, não foi? E ficou fixe até.
– Pois ficou. Arranja lá maneira de isto ser mais agradável. O que é que te custa?
– Não me custa nada, mas pensas que eu já me esqueci da desilusão que me deste no Éden? Não te disse que não tinhas nada que andar a roubar maçãs?
– Outra vez a mesma história. Gaita, quantas vezes tenho que te dizer que foi a puta da serpente que me enganou?
– E os teus putos, Adão? Onde é que tu andas com a cabeça? O teu mais velho matou o outro à paulada!
– Já o castiguei. Está sem pornografia durante um mês. Ajuda-me, meu Senhor e meu Deus. Dá-me qualquer coisa que me faça esquecer o jugo do inverno.
No dia seguinte, ao ver Eva a chegar, Adão observou-a de forma mais lasciva do que o costume. Algo estava diferente.
– Gostas? – perguntou Eva – Encontrei-as à beira do rio. Vou chamar-lhes “botas”.

Eva não era uma mulher especialmente bonita, mas era a única que havia. No entanto, com aquele novo calçado, parecia outra. As botas acrescentavam-lhe uns bons centímetros de altura, permitiam-lhe um andar apetitoso, espetando-lhe o traseiro de uma forma que fazia Adão esquecer-se do frio e da chuva. Adão sentiu pena que o soalho ainda não tivesse sido inventado. Certamente que o ruído provocado pela marcha seria robusto e estimulante. Ergueu as mãos para o céu em sinal de agradecimento ao Senhor. Deus havia criado as botas e Adão viu que tudo era bom.

– Esta é, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne. – disse enquanto observava a sua nova esposa a apanhar lenha para fazer o jantar.

Continuou a odiar o inverno, mas a dádiva do seu Criador tornava o frio mais fácil de suportar.

Mister Weatherman

Anthimio RTP

Toda a gente curtia do Anthímio e quem disser o contrário tem as mãos amarelas. Hoje é mais raro, mas antigamente era frequente as pessoas queixarem-se “oh, aquela gente que apresenta o tempo erra mais do que acerta”. Mas quando era o Anthímio de Azevedo a apresentar o tempo, a curva de credibilidade tinha um pico acentuado. De tal forma que, se o Anthímio dizia que no dia seguinte ia estar sol e afinal chovia, a culpa não era dele: o tempo é que se tinha enganado.

Vivíamos nos antípodas do Accuweather. Hei de sempre guardar o Anthímio no mesmo saco onde tenho a Abelha Maia, o Agora Escolha, o Sport Billy, o Kitt, a Ana dos Cabelos Ruivos, os Jogos Sem Fronteiras, o Clube Amigos Disney, o 123, o Tal Canal, o Alf, o Um Anjo na Terra, a revista Bravo, o Roque Santeiro, os Amigos do Gaspar, o Modelo e Detetive, o Duarte e Companhia, as patilhas do engenheiro Sousa Veloso, o sorriso do Vasco Granja e o bigode do Luís Pereira de Sousa – momento Nuno Markl da semana. O Anthímio é intocável, uma relíquia da minha infância.

Curtia tipo mil do homem e tenho pena de o ver partir. Espero que apanhe bom tempo na viagem.

Super-Passos: um, dois, três, salva(va) todos!

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Quando eu era criança, ainda se brincava na rua sem medo de ser vítima de rapto e fazer parte das estatísticas de tráfico de seres humanos. Quando alguém trazia bola, arranjava-se dois calhaus para fazer as balizas e a paródia arrancava ao apito de um árbitro de que ninguém precisava. Quando não havia bola, havia bicicleta. Éramos muitos, às vezes, e praticávamos malandragens como se fôssemos os Hells Angels do pedal. Quando não havia nem bola nem bicicleta, jogava-se às escondidas. E quando se jogava às escondidas normalmente eu acabava em casa, amuado. A malta do bairro gostava de jogar às escondidas com a modalidade “o último salva-todos”. Eu odiava que o último pudesse salvar todos! Era estúpido! Estúpido, estúpido, estúpido! Sobretudo porque tínhamos uma besta chamada Carlitos que era um autêntico ninja. Nove em cada dez vezes ele salvava todos. O infeliz que ficava a contar números de costas para o mundo e no fim gritava “aí vou eu”, nunca se podia esconder por causa do Carlitos que insistia em livrar todos.

O Super-Passos é como o Carlitos: um ninja salva-todos. O Crato quis ir embora porque a colocação de professores não correu lá muito bem, mas o Super-Passos não permitiu. Um, dois, três, salva-todos!

A Paula Teixeira da Cruz, que nem com dois desgraçadinhos-expiatórios se safou, tem mais vidas que um gato. O Super-Passos apanhou-a num voo rasante segundos antes de ela se estatelar no alcatrão e se desafazer em esparguete à bolonhesa. Um, dois, três, salva-todos!

Até o Senhor Irrevogável, Paulo Portas, conseguiu escapar do que toda a gente pensou ser a implosão final. “Vais aonde? Isso é o que tu pensas. Nada permitirei que te aconteça, Paulinho”. O Super-Passos, com a sua velocidade supersónica inverteu o movimento de rotação da Terra e tudo não passou de um “foi sem querer”. Um, dois, três, salva-todos!

É preciso resgatar o Relvas? Pois, esse é um trabalho para o Super-Passos. O conselho nacional do partido é um bom lugar para te abrigares dos inimigos. Um, dois, três, salva-todos!

Caiu, com estrondo, o meteoro dos vistos doirados, mas, uma vez mais, o Super-Passos safou… Ah?! Miguel Macedo apresentou a demissão? E o Super-Passos não o salvou? O que é que aconteceu à ideia de manter todos no barco enquanto isto não for definitivamente ao fundo?

A certa altura, lá no bairro, nós também deixámos de ter um salva-todos. Por alturas dos primeiros pelos púbicos, o Carlitos mudou-se e nunca mais jogámos às escondidas com essa modalidade. Umas vezes ganhava eu, outras vezes ganhava o Pedrinha, outras ganhava o Barbosa. Tinham-se acabado os ninjas e ganhávamos ou perdíamos com base no mérito. O critério que separava a vitória da derrota passou a ser a competência na arte do bem esconder.

 

 

Sabemos que este país está a mudar…

…quando estoura uma bomba do tamanho desta trapalhada do vistos Gold e não se fala em José Sócrates ou Miguel Relvas.  Eu nem sou fã do vício da caça às bruxas mas a mim, quem me tira um escândalo político relacionado com “facilitamentos” que não inclua um destes dois, tira-me tudo. Cause the times they are a changing, la, la, la!

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Das improbabilidades estatísticas

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Quando eu morava lá para os lados da infância, improbabilidade estatística era conseguir acabar o Street Fighter 2 sem perder nenhum round, cumprir um ditado sem dar erros, receber um convite para a festa de aniversário dos outros meninos da turma, ser o primeiro a ser escolhido para jogar à bola quando fazíamos equipas, descobrir que a minha mãe tinha comprado iogurtes de sabores em vez dos habituais “naturais” ou haver um amigo que nos oferecesse a pastilha do Epá.

Hoje, no bulício e na previsibilidade enfadonha da minha idade adulta, improbabilidade estatística é conseguir ver mais do que três vídeos seguidos no youtube sem ter de mamar com publicidade, ouvir uma música pimba sem acordeão ou passar uma semana sem que a Cristina Ferreira saia na capa de alguma revista.

Tenho medo das improbabilidades estatísticas de quando chegar a altura de andar a roçar o cu no banco de jardim, mas tenho esperança de até lá atingir um estado de graça em que me esteja nas tintas para isso. O mais certo é que chegue mesmo a ter saudades de quando as coisas não eram tão prováveis.

Eu ainda sou do tempo…

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…em que se vendiam vibradores disfarçados de massajadores faciais. Eu não conseguia perceber por que raio só as mulheres é que precisavam de massajar a face e ter direito a uma “agradável sensação de relaxamento”. Tenho um amigo que chegou a mandar vir uma cena destas para o Dia da Mãe. Nunca vi uma mulher tão contente ao rasgar um papel de embrulho. Foi desde essa altura que passou a ir muito menos à missa. Sempre que a via parecia-me muito bem-disposta.

Estes tonificadores encontravam-se na Maria, na TV Guia e noutras publicações que as donas de casa compravam no quiosque para saber primeiro que toda a gente o que ia acontecer entre a Viúva Porcina e o Sinhozinho Malta. Era gente que lidava mal com surpresas e twists manhosos. Se não sabe quem foram estas duas personagens é porque pertence a uma geração libertina e emancipada, mas com muita tensão acumulada nas maçãs do rosto.

Game of Thrones: too much information

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Um dos aspetos mais fascinantes do Game of Thrones é o facto de ser completamente proibido o luxo de nos embeiçarmos por qualquer personagem. Sabemos bem que para George R. R. R. R. R. R. R. Martin all men must die e se forem gajas também não há problema nenhum. De igual forma, não vale a pena desgastarmo-nos em repulsas pelos maus porque, mais cedo ou mais tarde, o velho gordo de barbas e chapéu de marinheiro limpa-lhes o sebo.

Eu não li os livros nem faço tenções de ler. Aquilo é muita página sem bonecos e muito nome de personagem para decorar. Não faço puto de ideia quem morre, quando morre, como morre, onde morre, porque morre, se morre, quem mata, porque mata, onde mata, como mata, se mata. No que toca aos morreres, quero manter-me santificado pela ignorância, com um saco de pano preto enfiado na cabeça. Nunca foi tão importante estar atascado no total desconhecimento relativamente à renovação de contratos dos atores de uma série. Ora, sabendo que oito personagens assinaram por mais duas épocas pelo Game of Thrones Futebol Clube, quase todos com um aumento astronómico no ordenado com opção de mais uma época, é justo assumir que não irão morrer, certo? Olha, cagalhão! Too much information, não?

Durante as próximas jornadas, farão parte do onze inicial o gnomo de barba, a loura boazuda incestuosa mãe do puto mete nojo, o prince charming maneta que gosta de jogar ao bate-pé com a irmã, a mãe-dragona, as manas Stark e a sexy babe viúva do puto mete nojo.

PS: Era nesta altura que me aparecia um leitor a dizer “olha que se calhar não vai ser bem assim”.