“Estreias” de Natal na televisão

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Vi o Skyfall duas vezes no cinema, três vezes nos torrents, duas vezes em streaming, uma vez no youtube porque houve alguém que o fracionou em 26 partes, mais duas vezes no avião (para lá e para cá) e ainda mais uma no autocarro numa excursão a Fátima (para cá rezámos o terço pelo caminho). Comprei a edição em dvd, que inclui um disco só de extras e, alguns meses depois, ainda consegui comprar o blu-ray por uma pechincha no ebay. Pera, pera, estava a esquecer-me daquele jantar de amigos que têm TVCine. Acabámos todos no sofá com um copo de vinho na mão a chorar a morte da M (a Teresa foi ao gregório quando o Javier desencaixou o maxilar inferior).

Mas finalmente vai estrear na televisão portuguesa.

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Tio, posso falar mal do velho?

A minha sobrinha levou-me a passear ao parque. Puxou-me pela mão e eu, todo vergado, segui por onde ela quis seguir e parei quando ela quis parar. Apanhámos muitas folhas do chão que largávamos logo de seguida porque aparecia sempre uma mais vistosa, mais bonita, maior. Fomos ao baloiços, mas ela não quis andar e ficou só a olhar para os outros meninos que esticavam as pernas e pediam mais força a quem empurrava. A minha sobrinha apontava para muitas coisas que queria que soubesse que estava a ver, interessando-se sobretudo pelos objetos de cores vigorosas e pelos seres vivos.
– Amália, agora vamos ali levantar dinheiro para comprar o lanche.
Junto à caixa de multibanco, enquanto esperávamos, arrumei-a no colo.
– Porra, que estás a ficar pesada.
Durante algum tempo, entreteve-se a puxar-me a barba e a desenhar curvas com o dedo indicador no meu cabelo. Quanto se fartou, perguntou-me ao ouvido se podia falar mal do velho que estava a servir-se da máquina.
– Amália, não se fala mal das pessoas que é feio.
As chaves do carro deram para ela se entreter mais uns minutos. Voltou-me a perguntar se podia falar mal do velho que estava a servir-se da máquina. Foi o meu braço direito dorido que lhe respondeu:
– Diz lá, mas baixinho.
Ao ouvido disse-me que não suportava as pessoas que iam para a caixa de multibanco pagar as contas todas do mês. Eu respondi-lhe que também não gostava, mas que tínhamos de ter paciência. Ela teimou que o velho era uma besta porque quando chegámos nem era ele que estava a usar a máquina e podia ter-nos deixado passado à frente. Eu disse-lhe que era Natal e que não valia a pena chatear-se. Quatro faturas depois e duas consultas de saldo, uma sem talão e outra com talão, alheou-se finalmente da máquina. Fui obrigado a concordar com ela: o velho era uma besta. Ele, ao ver a Amália, ainda disse:
– Olha uma menina tão bonita.
Ela fez-lhe cara feia, bufou pelo nariz e abraçou-se a mim. A minha sobrinha só tem 16 meses mas é esperta como tudo. Nunca a expressão “burrinho velho” me fez tanto sentido.

O homem mais sexy do ano

Eu não sei se é dos cabelos brancos, se é do sorriso maroto ou do raio que o parta. Sei que elas andam doidas com ele. O Clooney saiu de cena e elas apressaram-se a escolher o next big sexy thing: colocaram no trono um homem do púlpito. Casto, pobre, obediente, mas com aquele jeito de falar paulatino, muito desenhado, muitoconfiançudo, mesmo como Deus Nosso Senhor Todo Poderoso gosta. Tenho saudades dos tempos em que ser líder espiritual significava ser austero, carrancudo e pouco dado a piadolas. Vem-me para aqui este jesuíta, com aquele sex appeal sul-americano, com um sentido de humor astuto e com um glossário de frases de engate dissimuladas: “irmãs, cuidemos do nosso coração, amai o próximo como a vós mesmas” e é vê-las a desfalecer e a genufletir.

As mulheres adoram homens seguros e o Chico sabe muito bem o que quer e para onde vai. Dá-se bem com americanos, cubanos, refugiados islâmicos, judeus e se for preciso agarrar no telefone para dar uma palavra amiga também não tem problemas. Da mesma forma, se for preciso puxar as orelhas aos “amigos” mais próximos mesmo, por ele tudo bem, pouco lhe interessa que fiquem amuados. “Querem ser sexy como eu? Então deixem-se de ambições carreiristas e curem-se desse alzheimer espiritual”. É de uma confiança de tal forma inabalável que nem sequer muda de roupa.

Aos 78 anos, mantém-se em excelente forma física, não se lhe conhecendo hábitos de ginásio ou relações íntimas com injeções de botox. Não sei qual é o cachet dele, mas é provável que a Nespresso lhe ponha as patas em cima em breve. Põe-te a pau, Clooney. Ele é jesuíta: foi treinado para ser eficaz.

Happy birthday, Stan Lee

Celebs.com Studio at Sundance Film Festival 2012.

Não tem superpoderes. Não voa. Não tem superforça. Não tem capa. Não tem collants azuis em spandex. Não esguicha teias de aranhas dos pulsos. Não tem armaduras. Não tem martelos com feitio atravessado. Não fica verde quando se enerva. Não tem garras coladas às falanges.

Faz hoje 92 anos. And he still looks like is able to KICK YOUR ASS!

Os miminhos, as gracinhas, as lembrancinhas

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Este ano, até ver, já recebi dois miminhos, quatro gracinhas e três lembrancinhas. Tenho-as para ali todas dentro de um saco, algumas ainda muito afeiçoadas ao papel de embrulho. São caixas de chocolate vulgar, canetas ordinárias em caixas de alumínio ainda mais ordinárias, boiões de doce de abóbora que foi a avó que fez e enfeitou com a fitinha rendada, pendentes com ar de loja oriental para o pinheirinho, velas que nunca vão ser queimadas, molduras de plástico com pessoas a preto e branco sempre a sorrir e a ser feliz, figurinhas em pano que é a vizinha do 4º esquerdo que faz. Algumas, vê-se bem, foram compradas em pecado: não suporto gente cobarde que trata das prendas em setembro para evitar filas.
Ele há verdadeiros especialistas nesta praxis natalícia. Às vezes vêm mesmo com ar de lembrancinha mas trocam-me as voltas porque afinal
– É só um miminho.
e  cai-me o queixo quando, enfim,
– É só uma gracinha.

Durante o ano, treino muito em frente ao espelho o sorriso para a apanha dos miminhos, das gracinhas e das lembrancinhas. Não gosto de ser tomado sem guarda quando me vêm oferecer diminutivos embrulhados em papel colorido. De Natal em Natal acho que estou a ficar cada vez mais competente. Ainda ontem alguém me ofereceu uma caixa de Ferrero Rocher e me perguntou
– Já tens ou queres trocar?
e eu, que nem percebi a pergunta, mantive os músculos da face bem retesados a rogar a Deus Nosso Senhor para que aquilo acabasse depressa. Eu nem quero imaginar o que é que o Deus-Menino iria pensar dessas pessoas se elas não oferecessem nada este ano. Com a pilinha ao léu, nas palhinhas deitado, nas palhinhas estendido, a ditar nomes e apelidos ao Gaspar e Baltasar
– Estes é para arderem no fogo dos infernos por toda a eternidade, sem direito a requisição civil ou amnistia.

Alguém que lhe arranje um talk show, pá

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Quem é que escreve os guiões deste gajo? É o Quadros? Sagaz, cáustico, retorcido, sarcástico. O gajo é bom, pá, muito bom. Onde é que ele andou estes anos todos? Sou fã.

Sai da frente. Cala-te agora. Põe mais alto. Cala-me essa criança. Não me chateies agora com o que fizeste na escola. Sexo? Agora não posso.

É o tipo de coisas que já tenho dito quando começa o Show João Araújo. A primeira temporada, gravada junto no Campus da Justiça, foi fortíssima. Gostei muito daquele sketch em que ele passeia em frente ao tribunal com um saco plástico na mão e depois diz que é o almoço. Eh, eh, ganda punch line. Na segunda temporada, optaram por Évora. Também não está mal, não senhor, com a cena do cante alentejano e tal.

As câmaras gostam dele e ele, com aquele ar decoroso, quase cândido, parece ter estaleca para aqueles monólogos de abertura de chalaças terminadas em taram tantam pchhh. Pronto, está bem, deixem-no começar por baixo. Deem-lhe as manhãs da CMTV ou outra merda qualquer. O que é se faz ao Nuno Graciano? É descarregá-lo no mesmo aterro sanitário em que está o Humberto Bernardo. Eles que se entretenham a jogar ao Mikado enquanto não se transformam em húmus.

Interstellar: o melhor filme do ano

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Eu juro que queria escrever um texto todo gingão, cheio de confettis e rococós, mas não estou capaz. Ainda me sinto muito desorganizado. As três horas são um sopro e o que sobra é a ideia de que alguma coisa de muito grave ali se passou. Quando chegam os créditos finais a sensação é a de termos sido atropelados por um comboio. Interstellar é uma paulada seca e violenta. Eu que sou fã do vocábulo “incrível” sinto que desta vez não é suficiente: Interstellar é um assombro. É um pasmo estético, um mimo visual arrebatador. Mas não se pense que o filme se esgota num soneto perfeito de cor e imagem. Nolan é demasiado inteligente para isso. A dimensão visual serve apenas de amparo irrepreensível para uma história brilhante, contada de uma forma incrivelmente verosímil. Interstellar é o melhor filme do ano. Só é possível aceitar isso depois de o ver e de se ser fustigado violentamente pelo seu peso e valor. É caso para dizer: Nolan, assim também é demais. Eu queria dizer mais coisas bonitas sobre a banda-sonora, os atores, os sons, os silêncios, mas não estou capaz. Foi tudo demasiado intenso. Vou só ali mamar meia garrafa de whisky, sonhar com buracos negros e teorias da relatividade.

Ó Socas, queres comprar?

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Tenho um para vender no OLX há mais de ano e meio e ninguém lhe pega. Só houve um moço de Alcochete que se mostrou interessado, mas eu só aceito negócios de entrega em mão. Chamem-me antiquado, mas não gosto cá de dinheiro a ser transportado de um lado para o outro por terceiros. 50 euros e não se fala mais nisso.

Duas notas:

1. Diz a Wikipédia, “Em 2014, a Universidade Portucalense fez um estudo ao computador Magalhães, concluindo que foi um fracasso. A razão é simples: o portátil pouco era usado pelos alunos e quando era utilizado não era integrado nos trabalhos das aulas. O estudo revela que os alunos do 1.º ciclo a que foi dado o Magalhães “apenas utilizavam esta ferramenta de forma esporádica dentro do contexto de sala de aula”. Os resultados deste estudo permitem verificar que 89,1% dos professores, 84,5% dos encarregados de educação e 86% dos alunos consideram que nunca ou raramente o computador é utilizado nas salas de aula.”

2. Presumível inocente, presumível inocente, presumível inocente…porra! já não há cu que aguente. Mais parece o refrão de uma canção tradicional da Cova da Moura. Citando João Miguel Tavares na sua opinião no Público, “Sócrates foi presumível inocente na construção de casas na Guarda, foi presumível inocente na licenciatura da Independente, foi presumível inocente na Cova da Beira, foi presumível inocente no Freeport, foi presumível inocente na casa da Braamcamp, foi presumível inocente no assalto ao BCP, foi presumível inocente na tentativa de controlar a TVI, foi presumível inocente no pequeno-almoço pago a Luís Figo. Mal começou a ser escrutinado, a presunção de inocência tornou-se uma segunda pele.Berlusconi, és um menino!