Foi-se a moça

irina

Então acabou-se, hein? Quase cinco anos… Ainda estou em denial. Eles que faziam um casalinho tão jeitoso, ultrapassando até todas as barreiras linguísticas.

– Eles lá se entendiam: falavam a língua do amor.

Quem disse isso? Shame on you! A fazer piadas num momento tão difícil para o ex-casal em pleno período de nojo. As habilidades de poliglota do tribola de ouro (desembaraça-se no inglês, falseia o espanhol e estilhaça o português) não terão paralelo com a folia circense do controlo do esférico, mas para alguma coisa terão servido. Dona Dolores, não se acanhe. Arrebente lá os foguetes que sobraram da última gala que ninguém vai levar a mal. Mãe é mãe. Para nós mortais, os próximos dias serão duros, mas cá nos aguentaremos. Caminharemos de rosto caído mas faremos de conta que é devido ao frio e à chuva, nada que um casaco quentinho não resolva. Para mim, não tem sido fácil. Apostei muito nesta relação e custa-me ver as coisas acabarem desta maneira.

Olha, o Benfica espetou quatro secos ao Marítimo. Lá me vou distraindo com estas coisas pequenas…

Ainda somos muitos para sermos todos um

charlie line up

É o da esquerda. Não, o segundo a contar da direita. Será aquele do meio? Aquele dos óculos parece-me familiar.  O da direita é de certeza. Porra, estou a ficar zonzo…

Já sei, já sei: éramos para ser, mas afinal não somos. Éramos para ser todos Charlie, mas afinal há uns que não têm as quotas em dia. É uma pena. A ideia de sermos todos alguma coisa até era catita. Pronto, se calhar fica para a próxima. Talvez quando formos menos. Ainda somos muitos para sermos todos uma coisa. Ao início pensei que a ideia era coisa na onda do quem diz é quem é – “Je suis Charlie” está no singular – e quantos mais fôssemos, melhor. Entretanto, talvez algo se tenha perdido na tradução porque o “Somos todos Charlie” no plural não está a ter grande saída. Acho que isto só lá vai com um Charlieómetro, uma jigajoga que funcione com a primeira urina da manhã. Se tiver dois tracinhos, é porque “há um Charlie dentro de si”. Se não, é continuar a ir aos treinos.

Ser Charlie significa, digo eu, duas coisas: por um lado, estar solidário com as vítimas dos atentados e com as suas famílias; por outro, reafirmar que o direito à expressão é um lugar onde a relva cresce viçosa e que daqui não eu saio, daqui ninguém me tira. Relativamente à primeira, é “fácil” ser Charlie. Doze balázios no lombo não nos dão muita vontade de cantar o kumbaya. A segunda já dá mais trabalho até porque essa coisa da liberdade de expressão talvez tenha muitas zonas cinzentas. Só que não…

Eu sei o que é que chateia: são os Charlies de linha branca, comprados na feira. São os maus mascarados de Charlie. A mim também me chateia e acredito que haja quem fique ainda mais danado do que eu e com razão. Sobretudo aqueles que ouvem a vizinha aos gritos com o amante a dizer “Aperta-me as mamas e chama-me Charlie!” e no dia seguinte, quando o marido chegar cheio de apetites, diz que lhe dói a cabeça. O que também não ajuda é o “todos”. Será que é preciso sermos todos? Era supimpa, realmente. Mas se formos mais do que os que éramos, já não é mau. Se formos quase todos Charlie nem que seja por um dia ou dois já não é mau. Mas se calhar sou eu, que sou feliz com pouco.

 

 

Talvez eu tenha mentido quando vos desejei um bom ano

Illustration: Truth and Lie

Eu sei que tenho passado os últimos dias a desejar um feliz ano novo a toda a gente, mas talvez eu não tenha sido honesto. Para ser franco, eu não sei se quero que todos tenham um bom ano. Vamos lá a ver, eu não me importo que as pessoas sejam felizes, que tenham saúde, que realizem sonhos e que levem uma sova de coisas fofas. Mas temos de encarar as coisas como elas são: as coisas boas no mundo são limitadas ao stock existente. Não há coisas boas suficientes para todos e não vale a pena convencermo-nos do contrário. Isto de “ter um bom ano” é como ir aos saldos: se todos os outros encontrarem o que querem, quando eu lá chegar só sobram aquelas camisolas malparecidas onde se começam a incubar borbotos logo após a primeira lavagem. Será que é errado eu desejar um ano assim-assim para algumas pessoas? Um ano médio, vá. Um mediano (lol! perceberam a piada ou estou-me a rir sozinho?).

Até ao fim desta semana vou continuar a fazer de conta que desejo um bom ano para todos, mas cá por dentro vou ser muito criterioso. É possível que esteja a fazer batota com alguns de vós. Se lá para dia 15 ainda vos desejar bom ano é porque estou mesmo a ser um hipócrita de classe executiva.