Ainda somos muitos para sermos todos um

charlie line up

É o da esquerda. Não, o segundo a contar da direita. Será aquele do meio? Aquele dos óculos parece-me familiar.  O da direita é de certeza. Porra, estou a ficar zonzo…

Já sei, já sei: éramos para ser, mas afinal não somos. Éramos para ser todos Charlie, mas afinal há uns que não têm as quotas em dia. É uma pena. A ideia de sermos todos alguma coisa até era catita. Pronto, se calhar fica para a próxima. Talvez quando formos menos. Ainda somos muitos para sermos todos uma coisa. Ao início pensei que a ideia era coisa na onda do quem diz é quem é – “Je suis Charlie” está no singular – e quantos mais fôssemos, melhor. Entretanto, talvez algo se tenha perdido na tradução porque o “Somos todos Charlie” no plural não está a ter grande saída. Acho que isto só lá vai com um Charlieómetro, uma jigajoga que funcione com a primeira urina da manhã. Se tiver dois tracinhos, é porque “há um Charlie dentro de si”. Se não, é continuar a ir aos treinos.

Ser Charlie significa, digo eu, duas coisas: por um lado, estar solidário com as vítimas dos atentados e com as suas famílias; por outro, reafirmar que o direito à expressão é um lugar onde a relva cresce viçosa e que daqui não eu saio, daqui ninguém me tira. Relativamente à primeira, é “fácil” ser Charlie. Doze balázios no lombo não nos dão muita vontade de cantar o kumbaya. A segunda já dá mais trabalho até porque essa coisa da liberdade de expressão talvez tenha muitas zonas cinzentas. Só que não…

Eu sei o que é que chateia: são os Charlies de linha branca, comprados na feira. São os maus mascarados de Charlie. A mim também me chateia e acredito que haja quem fique ainda mais danado do que eu e com razão. Sobretudo aqueles que ouvem a vizinha aos gritos com o amante a dizer “Aperta-me as mamas e chama-me Charlie!” e no dia seguinte, quando o marido chegar cheio de apetites, diz que lhe dói a cabeça. O que também não ajuda é o “todos”. Será que é preciso sermos todos? Era supimpa, realmente. Mas se formos mais do que os que éramos, já não é mau. Se formos quase todos Charlie nem que seja por um dia ou dois já não é mau. Mas se calhar sou eu, que sou feliz com pouco.

 

 

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2 thoughts on “Ainda somos muitos para sermos todos um

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