Avô, um dia hei de estar nesta capa

SgtPepperfinório

– Boa tarde te dê Deus.
– Bolas, avô! Que susto!
Era a segunda vez naquela semana que o meu avô me apanhava em vergonhas. Na primeira, tinha ido dar comigo dentro da capoeira, ao lado da galinha mais gorda. Eu estava ali de joelhos havia umas quantas horas à espera que largasse um ovo.
– Tu que estás a fazer, rapaz?
– Quero vê-lo sair. Deve estar quase.
– Desanda daí e vai ajudar a tua avó a descascar feijão para a sopa. Há meia hora que ela anda a chamar por ti. Tu não a ouves?
Claro que a ouvia. A minha avó ouvia-se no campo de milho do Brás que era bem lá para baixo, colado às primeiras pedras do ribeiro.

Agora tinha sido apanhado no escuro do sótão a revirar os discos de vinil dele. Era trinta vezes pior do que ser apanhado dentro da capoeira à espera de ver o que largava o ventre de uma galinha. O meu avô odiava que eu mexesse nos discos dele porque achava eu não queria saber da música para nada, só gostava de olhar para as capas.
– Ó avô, estou só a ver. Eu não os estrago.
– Aí não estragas, não. Arruma isso com muito tino e vai ajudar a tua avó a descascar feijão para a sopa.
Comecei a achar que a minha avó só fazia sopa de feijão sempre que o meu avô me queria longe.

De todas as capas de discos, a do Srgt. Pepper’s dos Beatles era aquela em que eu investia mais tempo. Não fazia ideia de quem eram aqueles moços, nem aquela gente toda, mas aquilo fazia-me lembrar as fotografias antes da boda nos degraus da igreja. Não percebia porque é que uns estavam com ar tão enfadado e outros tinham vindo para a festa doentes e sem cor. Alguns pareciam gente da fama. Não sabia quem eram aqueles moços e o meu avô também pouco dizia deles. Que tinham «inventado tudo, mas que eu ainda era novo para perceber» era a única coisa que dizia deles.
– Olha a sorte de encontrarem um canteiro com o nome deles escrito a flores.
Antes de arrumar o disco, disse ao meu avô:
– Avô, um dia vou arranjar maneira de estar na capa deste disco.

Hoje é esse dia.

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Quem manda?

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Convidaram-me para falar para crianças e fizeram um trabalho de tal forma bem feito que fui convencido que sairia de lá com vida. Deram-me um dicionário de “Português dos Pequeninos”, disseram-me o que elas precisavam de ouvir e encaminharam-me aos crocodilos. Falámos das letras, das palavras, das letras e das palavras nos livros, nos contos, nas fábulas, no escrever.

– A seguir às pessoas, as palavras talvez sejam a coisa mais interessante do mundo.

Mão no ar da menina-princesa de olhos grandes com roupa de ir à missa.

– E o meu cão? As palavras são mais interessantes do que o meu cão?

– …

É bem feito para não ter a mania que sou esperto.

Tem vergonha!

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– O que é que tu pensas que estás a fazer?

Desfiz-me em vergonhas. Fui eu mesmo que, ao ver-me dançar em cuecas ao som de Taylor Swift em frente ao espelho da casa de banho, levantei a voz para que aquela adoração a Satanás em forma de dança acabasse de uma vez.

– Como é que foste capaz? Eu já sabia. Bastava apanhares-te um dia sem febres, dores de cabeça e fluxos de ventre desgarrados que entravas logo em modo “ai que feliz que estou”. Mais valia mijares na banheira durante o banho.

Inchei de repulsa enquanto me mirava ao espelho enquanto batia no peito a castigar-me. Eu sabia que isto podia acontecer mais dia, menos dia. É bem feito. É nisto que dá sintonizar a telefonia numa daquelas rádios construídas em cima de playlists em esteroides.

 

(aquele que nunca bateu o pézinho ao som do shake it off que atire a primeira pedra)

Tão cedo não me apanham noutra

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Estou a ter alguma dificuldade em perceber o que é suposto fazer agora. Tudo bem, acordei com febre e, a custo, lá aceitei que não estava capaz de ir trabalhar. O dia de ontem já se tinha revelado complicado, mas esperava que fosse uma pieguice temporária. Afinal de contas sou homem e sabemos como qualquer “valentão” se verga com facilidade perante a mais ligeira das enfermidades. A febre lá se encolheu perante o todo-poderoso Brufen. A sensação do corpo moído pelas longas horas atolado no colchão só é compensada pela agradável ausência dos calafrios e arrepios.

Não me lembro da última vez que estive doente e não sei como é que é suposto comportar-me. Fico aqui a olhar à espera que seja amanhã? Não estou habituado a ter tanto tempo livre e agora não sei o que hei de fazer com isto. Nem penses em sair de casa, disse-me o meu pai há pouco pelo telefone, se não nunca mais te vês livre disso. Pronto, fico para aqui a olhar para as paredes a aceitar a ideia de que afinal de contas não sou feito de betão. Fico, mas fico contrariado. Acho também que não ia longe. Tão cedo não me apanham noutra. Que desperdício de tempo! O Gil do armazém já me ligou a dizer que os almoços não são a mesma coisa sem mim. Vê se te pões fino que isto sem ti não é a mesma coisa. A julgar pela paródia que se ouvia ao fundo, acho que ele só estava a ser simpático.

Ah?!

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Nisto dos “barrares” sou muito pussy: quem me tira a manteiga e o queijo da serra tira-me tudo. Vá lá, de vez em quando, aceito uma compota e uma marmelada caseira, mas só se for feita pela avó de uma miúda gira que eu queira impressionar. E mesmo assim faço batota porque, em cada dentada, imagino sempre que estou a enroscar a língua em queijo amanteigado para ser mais fácil de engolir. Donde, a Nutella, a mim, não acrescenta nada. Mas tudo bem. Eu percebo a malta que come aquilo à colher. No caso do pessoal que põe Nutella na sopa ou no bacalhau assado, aí penso que já entramos no domínio patológico. Mas pronto, todos temos as nossas manias. Eu também gosto de praticar o coito com o meu radiador a óleo e não é mal de que me queira tratar, mesmo quando ando todo cheio de crostas nas partes.

Agora, virem-me com um dia mundial da Nutella… Mas quem é que decide estas coisas? Dois bloguers italianos acharam que a ideia era boa e a coisa colou. A ONU sabe disto? Claro que sabe. O secretário-geral Ban Ki-Moon usa Nutella como gel de banho. E a seguir vem o quê? Nutella na Roda dos Alimentos.