Skate para dedos (ou No meu tempo é que era bom)

dá-lhe, falange

– Que jigajoga é essa?
– Um finger skate.
– Um skate para dedos?
– Sim, mas diz-se finger skate.
– Eu mostro-te o finger…
– Hã?
– Nada. E o boné que estás a usar virado para trás? É para fazeres de conta que estás a executar cenas perigosas?
– Não é um boné. É um cap.
– Cap? Isso é um boné, pá.
– Pois, é um boné… só que não. Boné é prós putos irem para a praia. Um cap é prós street boy.
– E tu és um street boy?
– Ya.
– E o que é que fazem os street boys? Lascam falanges? Usam calças pelo rego abaixo enquanto riscam a mesa da sala com um skate de porta-chaves?
– O que são falanges?
– Esquece. Qualquer dia inventam bicicletas para dedos…
– Chamam-se finger bikes.
– Já inventaram essa merda também???
– Sim. Tenho três.
– Onde? Guardadas na garagem do teu pai, não?
– Na garagem. Só que não… Estão ali no armário.
– Vê lá não esfoles os joelhos quando fores abrir a gaveta. É melhor usares capacete nas unhas.
– Tu não percebes a cena, man…
– E juntas-te com os teus amigos para andarem de…
– …finger bike.
– Isso. Juntam-se e dão agradáveis passeios em bando?
– Claro. Via Skype.
– Vocês andam de bicicleta juntos via Skype??? Virgem Santíssima. Vocês ainda se masturbam ao menos?
– Que é isso?
– Esquece. Pergunta ao teu pai. Queres ir ao parque jogar à bola?
– Não me apetece. Mas já tenho o FIFA 15 prá PS4, se quiseres.
– Afinal o que é que vocês fazem que seja perigoso?
– O meu pai diz-me para eu ter cuidado a usar o compasso nos exercícios de matemática.

 Muito difícil não cair na armadilha do saudosismo.

Quem é que dizia que a Marine Le Pen era só uma carinha laroca?

marine pink floyd

1. À primeira vista, parece apenas uma patricinha sensualona. Mas deem uma oportunidade à febra, que ides ver. Gosto da teoria da “máquina de fazer franceses”. Só um totó é que ainda vê na diversidade uma oportunidade e não uma falha a corrigir.

“Temos de acabar com esse tipo de ensino que não favorece a harmonia na sociedade mas sim o comunitarismo, que evidencia alguns desvios muito perigosos. (…) A escola deve ser a âncora republicana, deve precisamente fabricar franceses de corpo inteiro e não remeter as crianças para as suas diferenças”.

  1. Outra das pérolas na entrevista da “rainha avec” ao Expresso é a redenção  pela morte.

“Creio que a existência da pena de morte é suscetível de fazer refletir duas vezes as pessoas que hoje apenas correm riscos limitados quando cometem essas atrocidades.”

Marine, sua tesuda, não digas a ninguém, mas há cerca de 23 mil pessoas em corredores da morte pelo mundo. Segundo a Amnistia Internacional, o ministério da saúde chinês ainda usa órgãos de prisioneiros executados em transplantes. Ah, já agora: mais de 80% dos 67 especialistas incluídos em um estudo nos EUA concluíram que a pena de morte não reduz crimes.

Mas continuo à espera de te ver na capa da Playboy.

 

Três drogas duras

500_9789724622439_o_pecado_de_porto_negroO Pecado de Porto Negro

 

Lá no trabalho, elas andavam todas doidas com isto, que era tipo Eça de Queirós meets Jorge Amado. Livro de gaja, pensava eu. Tanto andaram, tanto andaram, que lá me decidi a comprar aquela gaita. Quando dei conta já estava nas últimas páginas. Aspirei-o em meia dúzia de dias e só o cio da gata da minha vizinha é que me impediu de ser mais célere (um dia castro o raio da bicha!). O Pecado de Porto Negro é um vício perigosíssimo. Norberto Morais é ainda pouco conhecido, mas o moço faz-se. Escreve bem, mas bem, raios o partam. A certa altura, exigiu-me que não fizesse mais nada. É bom até à última sílaba.

 

 

Jerusalém1507-1

“Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater”, José Saramago. Achava até que talvez fosse um exagero, uma daquelas necessidades de fabricar à força um novo génio da literatura. Mas o que se passa em Jerusalém é, de facto, muito grave. As palavras são escolhidas com um critério quase cruel, havendo muito poucos espaços em branco para o leitor completar. Mas nada parece faltar. É das melhores coisas que li nos últimos anos.

 

 

 

A desumanizaçãoimage

Tenho a merda do livro todo sublinhado. A quantidade de frases que me apetecia roubar-lhe não tem fim. É um livro sofrido, não é coisa para se ler no verão à beira da piscina. Acredito que não seja o melhor livro dele, mas as edições de Valter Hugo Mãe estão esgotadas em todo o lado.

 

 

 

 

 

I want you at Remax

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Há tantos anos que eu vejo pessoas extraordinárias. E eu a cobiçar-lhes a existência à distância, com o embaraço próprio de quem repudia a sua normalidade. Amanhã vou lá. Já fui ao site da Remax e está lá escrito, em letras muito miudinhas, que me devolvem o dinheiro, caso não me consigam exorcizar a banalidade toda que me polui o corpo e a mente. Vestirei as minhas calças cáqui que me fazem o rabo maior, chegarei ao balcão e direi:

– Boa tarde. Venho para ser extraordinário, faxavor.

(acho que a frase não é deles: é uma citação do Cristo do livro dos Atos dos Apóstolos.)

Fuuuuuujam!

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Há tanta coisa errada neste filme! Kingsman é assustador. A quantidade de disparates que aqui acontecem só passou despercebida porque estava tudo demasiado ocupado a curtir o flop de As 50 sombras de Grey. É uma mancha no currículo de Michael Caine e de Colin Firth. Samuel L. Jackson tem a sua pior personagem de sempre, com um “sotaque” de sopinha de massa que quase me fez abandonar o filme a meio. E não tenho dúvidas nenhumas que vai ter sequela. Um escroto!

Em modo random

5099750108291_600Não tenho o hábito de ouvir música em modo shuffle. Nunca dou verdadeiramente hipóteses ao poder aleatório das inteligências artificiais e avanço sempre até alguma coisa que queira mesmo ouvir. Nesse campo, só tenho alguma estima pelo repeat ou, como diz o meu irmão, modo “não chega já dessa merda?”.
Hoje fui às sortes e safei-me. Devo ter escolhido o modo aleatório sem querer e calhou-me o Alma Mater do Rodrigo Leão. «Tchi, há quanto tempo!» Lembro-me da primeira vez que a ouvi. Estávamos para aí no segundo ano da faculdade e a música portátil ainda não cabia no bolso e mamava muitas pilhas (tão plangente que soa a ausência de progresso). A Inês vinha de autocarro de Setúbal todos os dias e tinha nascido sem o gene da tolerância para conversas de circunstância. Sentava-se lá atrás, tapava-se muito bem tapadinha com os headphones do leitor de cd portátil e cagalhão prás conversas do frio que aí vem ou do episódio de ontem da Kananga do Japão (aos 12 anos eu já andava na faculdade).
Estávamos na cantina a tomar o pequeno-almoço e ela estende-me os phones.
– Ouve lá esta merda, bidé.
(até hoje chamo “bidé” às pessoas à conta dela. A Inês gostava de palavras e tratava-as com mimo, retirando-as dos contextos a que elas viviam presas. Acho que ainda hoje faz isso.)
Eu tinha imenso respeito pelos afetos musicais da Inês, Deus me livre de lhe dizer que não. Não sei que cara tinha quando acabei de ouvir aquilo, mas ela percebeu logo que eu estava todo escangalhado.
– É do caralho, não é?
Ouvi-a mais três vezes de seguida. Aquela música só podia estar feita desde o tempo dos Visigodos, escondida debaixo de uma pedra e aquele camelo tinha tido a sorte de a encontrar! Baldei-me à aula seguinte para ouvir o disco todo. Mais tarde encontrei a prof nos corredores da faculdade e ela perguntou-me onde é que tinha andado.
– Estive num sítio incrível. Eu mostrava-lhe, mas acabei com as pilhas.
Nunca me arrependi de ter faltado àquela aula.

O meu pai está crescido

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Quando finalmente saí de casa dos meus pais, há quase sete anos, o meu irmão ainda lá ficou. Se a ideia de ter o quarto todo só para ele representava uma novidade que merecia ser usufruída, rapidamente compreendeu aquilo que para mim já se tinha tornado evidente: os nossos pais são as pessoas mais incríveis do mundo, mas a partir de certa altura temos de amá-los em pequenas porções. Vamos amá-los a vida toda, claro, mas de preferência, pouco tempo de cada vez.
– Tenho tantas saudades tuas. Ainda me amas, meu filho?
– Claro que sim, minha mãe. Mas só até às três e meia.
Mãe é mãe. Trouxe-nos ao mundo e há de ter sempre um saco com fruta e um tupperware com o resto do almoço.
O meu pai, é vê-lo crescer. Conseguimos finalmente que deixasse de usar peúgas brancas e lá se convenceu que é mais rápido apanhar a CRIL para apanhar a ponte. Já não se zanga tantas vezes com o telemóvel e no outro dia acho que até o apanhei a ler. Quando contei ao meu irmão ele disse logo: «deves ter visto mal».
Ontem à hora do almoço, sai-se com esta:
– Olha que a roupa da Primark é uma bela trampa!
O meu irmão quase se engasgou. «Foste tu?», perguntou ele baixinho. «Não! Ainda não tinha sequer começado a investir neste assunto. Só tenho andado a tentar que tire o terço do espelho retrovisor.» Olhámos um para o outro e percebemos que tinha sido uma epifania: tinha lá chegado sozinho. Abraçámo-nos com o meu pai a olhar para nós sem perceber nada. Ficámos tão orgulhosos. Como o tempo passa…Eles crescem tão depressa.

Raismaparta se amanhã não vou trabalhar sem calças!

sem calças

Não tenho estima nem respeito por qualquer tipo de interpretação dos sonhos, muito menos as que o povo praí vende. Pois se “sonhar com dente” resultasse na desgostosa “morte de parente”, assim estaria já eu sozinho e pelintra de afetos há muitos anos, tantas foram já as noites de sono interrompidas pela língua à procura dos molares, «que estejam cá todos! que estejam cá todos!». Uma destas noites foi tempo de revisitar o clássico “ir para o trabalho sem calças”. Diz quem sabe (?) que andar de cuecas por aí se traduz num estado de vulnerabilidade. À merda com a vulnerabilidade! Traduz-se, isso sim, num teste às falsas amizades. Que os desconhecidos e os mal-acordados do metro que me levou até ao escritório não me tenham feito um sinal de que me encontrava incompleto para sair à rua, pois lá o terei de aceitar, que anda por aí muito indivíduo que alimenta condições exageradas ao nível do extravagante, «não te metas com ele  que deve ser um daqueles malucos da nouvelle vague». Agora, que a malta do escritório me tenha deixado de canivetes felpudos ao léu até ao meu despertar num aí Jesus, olha cagalhão! É assim que se veem os amigos! Pois amanhã irei trabalhar sem calças. Sempre quero ver quem são os que me querem bem e aqueles que desejam apenas um motivo de troça para a pausa do café.

PS: se chover, vou só na quinta-feira, que eu preciso de amigos, mas não sou estúpido.