Nunca vi um filme do Manoel

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E não é agora que vou fazer de conta. Tenho imenso respeito pelo homem que se manteve apaixonadamente ativo até aos 106 anos, mas vivo na ignorância obscura relativamente ao cineasta e à sua obra.

Faço parte da “geração Tubarão”. A influência que o Tubarão teve na ideia de cinema para as massas não tem paralelo e é reconhecido o ódio que muitos cineastas têm pelo maior assassino marinho desde Moby Dick. João Botelho diz mesmo que “os miúdos de hoje têm grande dificuldade em estar dez minutos a olhar para uma pintura. Transformaram a arte em consumo. Foi um filme chamado Tubarão, de um tipo que até é um intelectual, que nos matou a todos. O Tubarão abriu a boca e engoliu-nos a todos. Foi ele que inventou esta coisa do cinema enquanto espetáculo infantojuvenil, com histórias curtas e grandes efeitos.”

Não arrisco a dizer que fale por todos, mas não duvido que fale por muitos: durante muitos anos o cinema português foi considerado uma “seca” intelectual, distante e elitista. A imagem era de má qualidade, o som era terrível e as histórias eram tudo menos imediatas. O episódio da Branca de Neve, de João César Monteiro, também não ajudou muito. Não me esqueço de “o público que se lixe e a crítica que se foda”, comentários do realizador após a estreia do filme. Os 130 mil contos de subsídio do estado bem se lixaram. Felizmente nessa altura já tinha havido um Adão e Eva, uma Tentação e já tínhamos percorrido as ruas da Zona J que já tinham aberto caminho para um pacto de fé do público com a longa-metragem tuga.

Logo à noite, teremos certamente um documentário sobre a vida do realizador que já está feito desde 1985 e que tem vindo a ser atualizado todos os anos porque o homem parecia ter gasto a infância nas profundezas do Estige, calcanhar incluído. As redações dos jornais já estão a decidir qual a melhor fotografia para ocupar toda a primeira página da edição de amanhã. Os atores e os críticos já se desdobram em comentários ao telefone solicitados de todas as rádios e estações de televisão. Mas não deixo de pensar que se o Manoel tivesse morrido há 30 anos, pouca gente lhe daria atenção. Somos tão limitados nos nossos “fazeres” que, com frequência, respeitamos mais a longevidade do que a obra. Não sei o que é que isso diz de mim e não sei o que isso diz de nós, mas cheira-me que não é bom.

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