Remaking MacGyver

É que nem num milhão de anos eu vou permitir que uma merda destas confunda as minhas memórias de adolescência. As minhas recordações dos domingos às sete da tarde vão continuar imaculadas e não vai ser um chavaleco com ar de surfista-que-papa-as-que-quer que as vai encher de dedadas. E nem se atrevam a fazer um remake do episódio das formigas!

Raio X

– Não respire… Pode respirar.
Enquanto não chega a minha vez, vou ouvindo, lá de dentro, a carpideira que nos tira a fotografia dos ossos. Não lhe conheço o rosto, mas aposto que é uma mulher cinzenta, com os seios já todos secos e com um marido que ainda acredita que os bigodes combinam com as camisolas de alças. Sou um náufrago a boiar numa sala de velhos entretidos pela Sónia Araújo a fazer de conta que está interessada nos fatos de banho de fabrico totalmente doméstico. Day time tv! Quando chegarmos a velhos teremos como escapar disto? E se eu chegar a velho já na próxima semana? Alguém me deita a mão?
– Não respire… Pode respirar.
A placa indica “sala de espera” – um eufemismo para “estufa”. Desconfio que atrás da televisão está um canteiro com morangos. Com sorte, à saída, ainda me entregam uns quantos numa caixa de plástico, daqueles muito bonitos por fora e azedos comá merda. O sol já tem altura suficiente para disparar flechas pela janela e a ventoinha tem um post it a informar, numa letra muito tosca, “avariado”. As paredes deste primeiro andar transformado em consultório talvez tenham sido brancas antes do 25 de abril, mas agora são de um castanho deprimido.
– Não respire… Pode respirar.
É urgente sair daqui. Estou a alucinar. Mais uns minutos e começo a descobrir curvas de sensualidade nas varizes da sexagenária que ainda agora se queixou de que “não somos nada”. Esta vem-me para a estufa com frases de velório e cabeleireiro. Havias de ser atropelada já à saída e ainda teres tempo para te lembrares o tanto que eras antes de expirares pela última vez! Fala por ti, velha dum cabrão!
– Senhor Finório.
Nem um minuto e já tenho a roupa toda dobradinha na cadeira. Já estão os braços dela a fazer de mim boneco de plasticina, a exigir-me o queixo para cima, os braços para baixo, as costas bem encostadas na placa metálica, os pés juntinhos, mais para trás, o queixo outra vez para cima, mais uma correção nos braços, não mexe, e…
– Não respire…
A senhora da máquina já tem reticências a crescer-lhe na garganta. A primeira ordem fica sempre em suspenso. São reticências de esperança.
– Pode respirar.
Um dia vou respirar só para a contrariar. Depois, ela que corrija em Photoshop. Vou receber a minha caixa de morangos e vou-me embora.