Raio X

– Não respire… Pode respirar.
Enquanto não chega a minha vez, vou ouvindo, lá de dentro, a carpideira que nos tira a fotografia dos ossos. Não lhe conheço o rosto, mas aposto que é uma mulher cinzenta, com os seios já todos secos e com um marido que ainda acredita que os bigodes combinam com as camisolas de alças. Sou um náufrago a boiar numa sala de velhos entretidos pela Sónia Araújo a fazer de conta que está interessada nos fatos de banho de fabrico totalmente doméstico. Day time tv! Quando chegarmos a velhos teremos como escapar disto? E se eu chegar a velho já na próxima semana? Alguém me deita a mão?
– Não respire… Pode respirar.
A placa indica “sala de espera” – um eufemismo para “estufa”. Desconfio que atrás da televisão está um canteiro com morangos. Com sorte, à saída, ainda me entregam uns quantos numa caixa de plástico, daqueles muito bonitos por fora e azedos comá merda. O sol já tem altura suficiente para disparar flechas pela janela e a ventoinha tem um post it a informar, numa letra muito tosca, “avariado”. As paredes deste primeiro andar transformado em consultório talvez tenham sido brancas antes do 25 de abril, mas agora são de um castanho deprimido.
– Não respire… Pode respirar.
É urgente sair daqui. Estou a alucinar. Mais uns minutos e começo a descobrir curvas de sensualidade nas varizes da sexagenária que ainda agora se queixou de que “não somos nada”. Esta vem-me para a estufa com frases de velório e cabeleireiro. Havias de ser atropelada já à saída e ainda teres tempo para te lembrares o tanto que eras antes de expirares pela última vez! Fala por ti, velha dum cabrão!
– Senhor Finório.
Nem um minuto e já tenho a roupa toda dobradinha na cadeira. Já estão os braços dela a fazer de mim boneco de plasticina, a exigir-me o queixo para cima, os braços para baixo, as costas bem encostadas na placa metálica, os pés juntinhos, mais para trás, o queixo outra vez para cima, mais uma correção nos braços, não mexe, e…
– Não respire…
A senhora da máquina já tem reticências a crescer-lhe na garganta. A primeira ordem fica sempre em suspenso. São reticências de esperança.
– Pode respirar.
Um dia vou respirar só para a contrariar. Depois, ela que corrija em Photoshop. Vou receber a minha caixa de morangos e vou-me embora.

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