São coisas do futebol

750! 750 agentes destacados para o Benfica-Porto deste sábado! Escondidos já na memória de todos, ditosos foram os dias em que era tão giro o futebol como era tão giro ter um Mini. Foram: o que foi não volta a ser.
Diz quem sabe que houve um tempo em que o ódio não era uma energia renovável que se alimentava dos versículos “ainda bem que não sou tripeiro” e “em cada lampião há um cabrão”. Encolhem-se os ombros, desenham-se sorrisos, pede-se mais um copo e renova-se a passagem do evangelho
– Isso são coisas normais do futebol!
Normais : aceites e consolidadas. O ódio é do cânone. O ódio define o cânone. O ódio canta-se e tem melodias que passam de pais para filhos. O ódio veste-se em cachecóis com letra bordadas. Quem não é pelo ódio, também não é bom chefe de família.
750! O desporto rei (?) precisa de 750 soldadinhos de chumbo de sangue frio não vão os “ânimos” aquecer. E no fim, se houver trinta detidos, doze feridos, vinte saraivadas de pedras e setenta isqueiros no relvado
– Tudo correu dentro da normalidade. São coisas do futebol.
Ai, as coisas do futebol… A saber:
gaiolas para adeptos;
patriarcas que suam veneno incapazes de partilhar o mesmo metro quadrado;
longas filas tingidas de vermelho alérgicas a um pingo de azul;
brindes de manguitos a duas mãos;
frações aéreas da calçada portuguesa;
shows de tv de doutores que celebram o erro em doentias repetições;
árbitros pela trela de homens vestidos de arame-farpado;
crianças que crescem com o mantra “só quando fores capaz de odiar a sério é que te levo a um jogo destes”.
Em Portugal, as pessoas não celebram a fé no seu clube: lamentam a fé dos outros. Os simpatizantes escasseiam, os militantes do ódio multiplicam-se e a festa do futebol era dantes.

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