Dos jantares de Natal

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– Então hoje é jantar de Natal de que grupo?
A minha mãe não achou mesmo graça nenhuma que eu confundisse a ceia de Natal do dia 24 do ano passado com um qualquer jantar de Natal. De pouco valeu tentar explicar que nas últimas semanas tinha andado todo espalhado e ébrio em repastos natalícios, e que já não lhes alcançava quaisquer diferenças.
Foi por isso que ao longo deste ano me fui desligando de vários clãs. Para não correr o risco de dar um novo desgosto a quem esteve dez horas numa marquesa do Santa Maria para me parir , saí do clube de xadrez, deixei de ir ao ginásio, abandonei o grupo de acólitos e até me despedi. Sou capaz até de, inconscientemente, ter sabotado algumas amizades. Pelo menos sempre me esquivo ao jantar dos “amigos que acham que eu sou amigo deles”. Não tenho emprego, nem ocupações de tempos livres, mas consegui reduzir drasticamente o número de jantares de Natal deste ano: trinta e quatro. Bem bom. Desses trinta e quatro, só dez incluem prendas, doze exigem miminhos e oito impõem lembrancinhas. Bem bom. Este ano só tenho jantares de Natal marcados até março. E foi porque comecei logo em setembro. Bem bom.

Nenhuma das anteriores

Boletim de voto

Sempre tive curiosidade em experimentar, nem que fosse por uma semana, viver num país onde a maioria das pessoas vivesse satisfeito com a capacidade e prestação dos seus líderes. Fui ver e parece que os cidadãos que mais confiam nos seus governos habitam no Laos, no Tajiquistão (?)…e no Ruanda. Olha, merda! Assim, fica difícil manter o otimismo. Há 37 anos que ando para aqui entregue a este Portugal e nunca lhe conheci um governo que enchesse, nem que fosse pela metade, o tanque da satisfação. É óbvio que faz parte do DNA luso viver descontente e bem-querer o canto das carpideiras. Nós curtimos! É fixe! “Estou na merda, mas sou feliz porque tenho sol, gajas, futebol, entrecosto e cerveja!”. E esta invenção (alguém disse anedota?) das sondagens diárias sempre enfia mais uns baldes de esterco pelo bucho.
– Ai, mas olha que as sondagens na Grécia e no Reino Unido também diziam que coiso e afinal cena.
Pois. Mas se há cobertor que o Tuga não dispensa é o da previsibilidade. É aquele confortozinho que a gente não dispensa nem que chova merda todos os dias. A necessidade do Tuga de fazer parte da carneirada – há um termo técnico para isto, mas não me lembro qual é – permanece viva, geração após geração, movimento após movimento, falhanço após falhanço, deceção após deceção. E vem o velho com o Correio da Manhã debaixo do braço e diz:
-Ah, eu até votava num dos partidos pequenos para variar, mas eles nunca ganham.
Ou votamos para ganhar, ou não votamos. Pois claro, todos queremos estar do lado dos “vencedores”. É como aquelas pessoas que não respondem Benfica, Porto ou Sporting quando lhes perguntam de que clube são. Se dizem que são apenas do Moreirense aí é que nós ficamos convencidos que há mesmo água em Marte.
Os “vencedores” – os laranjas e os rosas – são aqueles que têm feito sempre de nós derrotados. E vão variando. Agora eu, agora tu. Agora nós, agora vós. E Deus nos livre de nos tirarem a trampa do costume! De que é que fazíamos os bonecos carros alegóricos no Carnaval? Do Papa Chico? Até os bacanos que cortam pescoços a galinhas gostam dele, gaita!
Em dia de reflexão (ainda vou preso) ainda sonho com o dia em que os boletins de voto tenham uma opção: “nenhuma dos anteriores”. Mas eu sonho com muita coisa estúpida. Vejam lá que até acho que a democracia e o direito ao voto são cenas incríveis. Idealismos! Tenho tanto que aprender…

37, os tomates!

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O meu pai sempre se gabou de ser “bom de contas” e a minha mãe ainda hoje ergue as mãos para o céu por nunca ter saltado uma bola de contar Avé-Marias nos dias é que é ela a comandante de infantaria do terço das seis. Mas no que toca a contar anos de vida, são uns perfeitos aldrabões. Querem agora convencer-me que já faço 37 anos! A mim, que sei bem que não passaram mais que dois meses desde que esfolei um joelho a cair da minha primeira bicicleta! Que foi há cinco semanas que me masturbei pela primeira vez, que ainda há uma semana estava a chumbar no exame de código pela segunda vez e que foi ontem que criei a minha primeira conta de correio eletrónico na Netc.

Vê-se mesmo que só têm a 4ª classe. Estudassem!

Eu já ficava todo satisfeito…

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…se o meu irmão acabasse com esta rotina de mudar de casa todos os anos e abandonasse em definitivo a ideia de que até se tira proveito da suposta camaradagem masculina no carrego de caixas de cartão e sacos azuis made in sweden. Não fosse a merda da chantagem emocional inerente aos laços de sangue, evitava eu ter partido os copos do serviço à minha cunhada. Ter puxado do argumento “mas eram só copos, caga nisso” talvez não tenha sido a melhor opção…

Já podemos voltar a falar de coisas importantes?

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Vamos acreditar que a crise helénica está mais ou menos encaminhada e falemos novamente de coisas importantes. A Sara Sampaio, uma das namoradinhas de Portugal, voltou a tirar a roupa e isso é fixe. A circunstância ficou mais uma vez documentada em fotografias de muito bom gosto e isso ainda é mais fixe. O orgulho que aqueles pais devem ter naquelas mamas firmes e naquele rabo tipo bolinha-de-queijo!

– Ai, tadinha da Sara. Queres ver que também lhe foram à Cloud?

Alto! que as fotos saíram numa revista alemã digna e algumas delas foram espalhadas pela própria nas redes sociais. Não é Jennifer Lawrence quem quer!

Mantenho-me seletivo e escrupuloso, mas sou completamente a favor de mulheres nuas. Parece-me um conceito fantástico. Gosto particularmente quando alguma toma a opção de tirar a roupa na minha presença, sobretudo quando estou acordado. Digo-lhe sempre que acho uma ideia incrível e que é bem visto sim senhor. Mesmo que isso aconteça à conta de muito álcool na carola. “Agora que já sabes ondo moro, aparece sempre que quiseres”, é o que lhes digo quando acordam com o mundo a pesar-lhes na cabeça, à procura da roupa no chão e a tentarem perceber em que bueiro miserável foram acabar a noite.

Na minha cabeça, quando penso na Sara Sampaio, não me vejo livre da imagem de uma garotinha mimosa, um quase-milagre da genética de olhos verdes, beiça suculenta e dentes da coelhinha. Embora a Sarita já tenha 23 anos, acho-a demasiado angelical para a imaginar a saltar o muro do colégio interno com uma sua saia axadrezada e meias pelo joelho para ir ter comigo ao Ibis mais próximo. Não quer dizer que tenha esta fantasia muitas vezes, mas já tem calhado. Mas porra! Se tivessem de escolher entre ela e a Teresa Guilherme querem que eu acredite que preferiam a velha?

Não quero desenterrar uma questão já arrumada, mas e agora Jessica Athayde? Ficas-te?

Já experimentaste esta marca?

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Fui às compras com meu irmão. Eu precisava, entre outras coisas, de produtos de anti-engravidamento. Meu irmão limitava-se a seguir a lista de víveres que minha cunhada lhe tinha rabiscado na parte de trás de um talão de supermercado, com uma caneta muito grossa numa letra muito tosca.
– Já lhe disseste para usar uma letra decente?
– Achas? Assim se me enganar, tenho sempre uma boa desculpa.
Meu irmão ia assim partilhando estes pequenos truques para que um dia também eu possa escapar a delitos menores quando alguma resignada me queira aturar a tempo inteiro. Já no corredor dos profiláticos e lubrificantes, procuro novamente a sabedoria de meu irmão.
– Porra, estes são muito mais baratos. Já experimentaste isto?
– Já.
– E que tal? São bons?
– Não me dei muito bem com eles.
– Então? Erupções cutâneas e cenas?
– Não. Nove meses depois nasceu a tua sobrinha.
Trouxe dos mais caros que havia. E várias embalagens de lubrificante com sabor a ilhas tropicais, laranja, maçã e goiaba.

A pior forma de estar sempre acompanhado

Frau_im_OhrSenhor doutor, tenho uma nota musical a produzir desagradáveis vibrações, de forma ininterrupta, no meu ouvido esquerdo há três dias. Pois atão, senhor Finório, o seu tímpano encontra-se enguiçado, logo o ar não circula. Está tudo relacionado com essas alergias. O Eustáquio esqueceu a sua trompa num preguiçoso Fá sustenido. (risos) Pois o senhor doutor acha graça a isso? É que a minha audição se encontra extremamente condicionada funcionando apenas em mono porque só o meu ouvido direito recebe informação. Só me apetece enfiar uma chave Philips pelo canal adentro. Nada de exageros, senhor Finório, há coisas piores. Leva aqui uma bateria de “antis”: anti-inflamatório, anti-histamínico, anti-ranhoca. E passe pela praia que a água do mar também ajuda. Eu só queria estar sozinho, doutor. No silêncio é quando o ruído me ocupa mais. É horrível. Senhor Finório, acha que é por acaso que dizem que o silêncio é de ouro? São 70 euros faxavor. Não devo ter ouvido bem, doutor. Pareceu-me ter dito 70 euros?